sexta-feira, novembro 19, 2004

Caminhando e cantando... (Orgulho Louco)

Nilo Neto
Caminhada Crônica

Talvez tenha sido mera coincidência, mas o fato é que essa nossa ilha capital se chamava Vila de Nossa Senhora do Desterro, em seu longo período pré-republicano de existência. Esse nome refere-se à passagem bíblica chamada “Fuga do Egito”, onde nossa senhora escapa da ira do rei Herodes, carregando nos braços o menino Jesus, acompanhada de José.
Desde o começo, nossa cidade teve a vocação de abrigar todo tipo de: degredado, fugido, condenado, herege, bruxa e pirata. Mais modernamente: hippies, esotéricos, alternativos, anarquistas, e toda uma tribo de outsiders vêm aportando nesse nosso pedacinho de terra perdido no mar.
E se esses desterrados, saudosos de suas terras e sonhos, conseguiram criar por aqui um clima de magia, por outro lado, enterraram fundo na alma de nossa gente uma necessidade de resistir à todo tipo de opressão.
Para citar as mais recentes, temos o genocídio praticado na ilha de Anhatomirim, no final da década de 1890, que levou deste mundo os rebelados contra a nova oligarquia republicana, que empurrava garganta abaixo seu domínio, como naquele outro famoso episódio, conhecido por Revolta de Canudos, e que aqui deixou marcas de dor nas famílias que viram seus filhos sendo cruelmente assassinados pelo famigerado Coronel Moreira César.
Este senhor era o preposto do então presidente Floriano Peixoto. Para conter sua trilha de matança das lideranças políticas locais, fieis a monarquia, acabou sendo homenageado com o nome da cidade, Florianópolis.
Menos de um século depois, o episódio da Novembrada, marcou o fim da Ditadura Militar no Brasil, graças a uma fortíssima manifestação popular capaz de dar tapas na cara de Generais e Ministros, em plena praça XV. Naquela ocasião, o presidente Figueiredo descerrou placa homenageando o tal Floriano. Esta foi então pisoteada, queimada, mijada e jogada nas portas do palácio do governo.
Este ano tivemos outro embate histórico que culminou com a vitória do movimento do passe livre, que conseguiu mais uma vez demonstrar a força do povo unido, contras as barbaridades da elite burra. Mesmo que persista usurpando os direitos básicos de educação, saúde e lazer dos cidadãos. Todos seriamente comprometidos pela corja de ladrões que exploram o suor e sangue da população, através de um transporte publico caro e de péssima qualidade.
Neste contexto, no ultimo dia 13 de novembro aconteceu, aqui em Floripa, a primeira caminhada do orgulho louco. Sob os auspícios da bem sucedida parada do orgulho gay, associada ao ideário de ocupação dos latifúndios improdutivos do MST, éramos cerca de 60 pessoas. Na primeira parte do acontecimento, que começou cerca de 11 da manhã, manifestações culturais, políticas e sociais, tomaram conta do largo da alfândega. Os passantes puderam observar, ainda um pouco surpresos, de que forma pretendemos construir a identidade do novo louco. Outrora excluído e abandonado, hoje ele vem pra rua gritar que precisamos viver num mundo mais: solidário, cooperativo, inclusivo e tolerante com as diferenças.
Na segunda parte do dia, por volta das 14 horas embarcamos em ônibus cedido pelos companheiros do SINTUFSC (Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Federal de Santa Catarina), parceiros desde a primeira hora e rumamos a antiga Colônia Santana no vizinho município de São Jose. Hoje chamado de Instituto de Psiquiatria, maior hospício público de Santa Catarina.
Lá esticamos nossas faixas e fizemos um minuto de silêncio, em homenagem aos companheiros que permanecem presos na instituição, depois palavra aberta aos presentes que disseram palavras de incentivo aos internados, como: paz, harmonia, saúde e outras no sentido da transformação do hospital em espaço cultural, de geração de renda e vida nova aos “chamados” doentes mentais.
Questão de justiça lembrar o apoio imprescindível do apoio da presidência da Assembléia Legislativa, fornecendo material de divulgação, do coletivo da Radio de Tróia, na divulgação e participação efetiva em todos os momentos do evento, de integrantes do Maracatu Arrasta Ilha, do Fórum Catarinense de Saúde Mental, dos músicos do grupo Parasol, e de toda a galera que esteve de corpo e alma nessa empreitada diária de mudar o mundo.
Ano que vem, no segundo sábado de novembro, estaremos de volta, mais atilados e certeiros, quais arqueiros zen, com nossas flechas-pensamentos, prontos a derrubar os muros do preconceito, seja ele de que tipo for.
Nós, loucos organizados, queremos a felicidade que nos cabe. Falando nisso, o que você faz com sua loucura? Venha enlouque-ser com a gente. Mudar o mundo é mudar a si mesmo. Quanto mais simples, maior o espanto.

sexta-feira, outubro 08, 2004

Companheiras e Companheiros


Quando a idéia do Fórum surgiu, havia um pequeno grupo de pessoas, parte do núcleo da luta antimanicomial em Santa Catarina, que havia se revigorado com a ida de delegação com cerca de 40 pessoas, entre usuários, familiares e trabalhadores, ao encontro nacional do movimento, na cidade de Miguel Pereira, RJ, em outubro de 2001.

Naquele mesmo ano ocorreu um evento em Florianópolis, de abrangência estadual, que buscou discutir e encaminhar propostas para a construção de uma autêntica política de saúde mental, consonante com a reforma psiquiátrica que então se instalava no país. Estávamos todos na época ainda saboreando a entrada em vigor da lei 10.216, depois de longos anos de debates no Congresso Nacional, ainda que muito desfigurada do projeto original. Coisas, como a proibição da construção de novos manicômios, que a redação final apenas sugere:

Art. 2o - Parágrafo único. São direitos da pessoa portadora de transtorno mental:

IX - ser tratada, preferencialmente, em serviços comunitários de saúde mental.

E temos vários exemplos da necessidade de que a sociedade civil organizada pressione a máquina estatal. Nesse ano de 2004 vemos mais uma onda contrária à reforma se estabelecer, com a aprovação da abertura de um hospital psiquiátrico com 50 leitos em Guaraniaçu, pelo Conselho Estadual de Saúde do Paraná, conforme documento encabeçado pelo Fórum Popular de Saúde daquele Estado, que o Deputado Rosinha do PT Paranaense endossa, dirigido ao Conselho Nacional de Saúde em agosto desse ano. Queremos isso em nossa Santa e Bela Catarina?

Hoje nos deparamos com uma situação crítica. Nosso Fórum Catarinense de Saúde Mental, inchado e institucionalizado, plataforma política para uns, substituto da inoperante coordenação de saúde mental da Secretaria Estadual de Saúde para outros, possibilidade fazer um passeio para ainda outros, está correndo o risco de desaparecer. As tentativas de interferir diretamente naquela Coordenação via Colegiado de Atenção Psicosocial são ainda incipientes. Permanecemos aqui ainda sob a égide da lógica manicomial, visto que as principais decisões no âmbito estadual, passam por pessoas ligadas ao IPQ (Instituto de Psiquiatria de Santa Catarina).

Diante de todos estes fatos, essa nossa próxima reunião me parece vital, para que tomemos uma postura distanciada dos ventos palacianos, declarando uma posição claramente contrária à maré manicomial que preside a política de saúde mental em Santa Catarina.

Para tanto, uma reunião de pessoas conscientes e preparadas para discutir o tema, com posição antimanicomial clara e disposição para a luta, parece crucial. Temo pelo desvirtuamento. Temo pela institucionalização e engessamento do Fórum. Temo pela falta de uma base que, para além dos CAPS e seus trabalhadores, pudesse participar de mini-fórum regionalizados com acúmulo de discussão e propostas factíveis.

Ainda que costumeiramente eu costume pregar a tolerância e a inclusão, é chegada a hora de separar o joio do trigo. E que nosso Fórum retome seu rumo, cheio de um idealismo vigoroso, com militantes atentos, suas espadas desembainhadas e dispostos a cortar cabeças.

Senão melhor será optar pelo bloco do eu sozinho, no melhor espírito anarquista, inverter a lógica e tentar povoar os pesadelos de nossos carcereiros, seus hospícios e eletrochoques.

segunda-feira, setembro 13, 2004

claudio edinger fotógrafo Posted by Hello
Eu sou o louco que os próprios loucos não reconhecem.
Mas que os não loucos facilmente rotulam de: chato, inconveniente, agressivo, inconstante, irresponsável, vagabundo, chupin, aproveitador, mentiroso, manipulador e egoísta.
Então o meu lugar não é aqui?
Mas destas duas dores, a que mais me entristece é perceber que muitos loucos absorveram o hábito de serem juízes da normalidade e saem por aí colocando as pessoas em caixinhas mágicas de diagnósticos. É como aquele conceito de Paulo Freire, de hospedar o opressor, que diz que o oprimido, depois de tanto ver os métodos e as estratégias do opressor, age como o próprio opressor.
E ainda tantos insistem em me perguntar se sou psiquiatra ou psicólogo?
Não quero este poder, meus amigos loucos. Eu dele nada mais tenho para aprender ou ensinar. Guardem essa pergunta para outra pessoa.
Eu estarei olhando postes, pássaros e sentindo o vento.
Eu sou um a garça louca e bêbada, beijando a tempestade, como quem volta de meca disfarçada de: rinoceronte, ornitorrinco ou orangotango.
Ainda me olhas?
Ainda queres perguntar?
Sou igual e diferente. Sou único.
O que quero?
Um lugar pra falar e que me ouçam com o coração.
Tudo isso e mais dois ovos fritos por cima.
E tenho dito.

Nilo Neto

quarta-feira, julho 07, 2004

Desassossegados

O que me espanta é não vermos que por trás de tudo isso está a lógica
de mercado. O velho e bom capitalismo, disfarçado de neoliberalismo,
transformando-nos constantemente em peças de engrenagem, para que
sejamos consumidos enquanto consumimos (no melhor estilo MATRIX).

Lembra que no filme tem uma pílula milagrosa? Por que será que era
uma pílula e não uma respiração especial,tipo yoga ou taichi, ou
outra forma de gerar consciência? Será que não se trata de uma
propaganda subliminar da maravilhosa indústria farmacêutica?
Tem também aquele livro, o Admirável Mundo Novo, do Huxley, que nos
anos sessenta já previa a invenção da pílula da felicidade que
chamava de soma. Seria o prozac?

Nossa, devo estar com delírios persecutórios. Deixa eu ir correndo
tomar meu haldol, ou carbolítio, ou topamax, ou zyprexa, ou
habilify...

Falando nisso, que tal imaginar uma medicina sem lucro?
Médicos trabalhando pela vida humana, sem ter grandes contas
bancárias?
Que tal imaginar políticos trabalhando voluntariamente, tendo outra
profissão que os sustente?
E os padres que recebem dinheiro para serem intermediários de deus, e
a igreja, empresa mega multi milionária, especializada em vender
futuro, sem nenhuma garantia para quem compra?

A lista não tem fim e o monstro vive a nos devorar.

"Olhe, mas não toque; toque, mas não prove; prove, mas não coma; coma
mas não saboreie".

Abraço a todos

Nilo Neto - revolucionário de plantão

terça-feira, julho 06, 2004

salvador dali Posted by Hello
Projeto Aluado


Resgatando a memória do movimento da luta antimanicomial do Brasil


Os amores na mente as flores no chão
A certeza na frente, a História na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição

Geraldo Vandré

Objetivo

Reunir, preservar e compartilhar com todos os interessados, os documentos históricos que fizeram parte da trajetória do MLA.

Justificativa

Existem espalhados pelas casas dos militantes, em alguns caps e repartições públicas, milhares de fotos, desenhos, cartazes, panfletos, filmes, jornais que fizeram parte de momentos importantes da construção da reforma psiquiátrica em nosso país.
Este material está disperso e inacessível, correndo risco de se perder e deixar de ser aproveitado.
Notas:
• Criar uma ong ou fundação, para ser a curadora deste material.
• Espaço físico e equipamento para colocar à disposição dos pesquisadores e público em geral, o acervo disponível.
• Divulgação do Projeto para que haja doações.
• Certeza de continuidade, para que as pessoas confiem que o material doado não vá se perder nem deteriorar.
• Organização de exposições e visitas de escolares.
• Fazer contato com projetos assemelhados de outros países, para troca de experiência.
• Buscar informações com o pessoal da biblioteconomia.
• Garantir a participação dos usuários e familiares na organização, sendo que deverão ser remunerados pelo trabalho.

Nilo Marques de Medeiros Neto
Representante do Movimento Nacional da Luta Antimanicomial junto à Comissão Intersetorial de Saúde Mental do Conselho Nacional de Saúde.

sexta-feira, julho 02, 2004

CAPSTELO, CAPSTRANHO E CAPISTRANO

Muitos foram os encontros e desencontros desse primeiro congresso dos caps.
Saber que o pioneiro trabalho de Santos anda mal das pernas, doeu. Saber que existem mais caps privados e feitos dentro dos hospícios do que a gente imaginava, também.
Lindo foi ver tanta gente lutando, desejando e realizando a tal reforma psiquiátrica. Eu me senti mesmo muito amado, na minha condição flutuante de louco. Fiquei feliz também pelos meus companheiros e companheiras usuárias Brasil afora, que recebem a atenção diária desses valorosos guerreiros, trabalhadores da atenção psicosocial.
Participei de uma oficina sobre cooperativa e geração de renda.
Daí veio àquela coisa toda sobre como dividi os ganhos, como conseguir convênios, quem pode capacitar para o trabalho e tal.
Então perguntei aos trabalhadores de saúde mental presentes, se nas oficinas de geração de renda se discutia a ideologia por trás do modo de produção capitalista, como fator preponderante do sofrimento psíquico trabalhadores e eles me olharam como se eu fosse maluco...
Então preciso fazer umas reflexões aqui.

MARX E MATRIX

Numa grande reunião para discutir a implementação planetária do conceito de “você-pode-ser-um-vencedor”, Og Mandino, Dale Carnegie, Joseph Murphy, Napoleon Hill e Norman Vicent Peale e Lair Ribeiro concluíram que a única verdadeira saída para os portadores de transtorno mental era a de oferecer-lhes sub-empregos em fábricas, comércio, dando-lhes um sub-salário que não os matasse de fome, mas que garantisse à imagem dos donos do poder, um toque a mais de brilho e autoestima. Disseram os doutos senhores:
- Vamos dar esmola disfarçada aos malucos, para que não digam que somos desumanos. Assim eles também se ocupam de suas tarefas, como abelhas operárias e não ficam por aí fazendo estripulias. Além disso, deixam mais tempo para que seus familiares também sejam eficientes abelhas e possam no final do mês comprar medicamentos caros.
- Melhor ainda - disse Murphy - vamos juntar os governos e a indústria farmacêutica, aumentando o preço dos impostos e comprando remédios de alto custo, para que o governo faça essa compra.e as famílias achem que estão pegando remédio “de graça” nos postos de saúde. Enquanto isso vamos lucrando cada vez mais e deixando os ricos cada vez mais ricos e o hemisfério norte do planeta cada vez mais paranóico e milionário.
Então algum gênio da espécie que nem lembro bem quem, pensou:
- Mas qual seria a relação entre trabalho e loucura? Será que existe um sofrimento psíquico implícito nessa forma de organização capitalista que temos, por exemplo, dos trabalhadores das cidades e campos? E mais, se eles enlouquecem devido a esse conjunto poderoso de: salário, transporte público, saneamento básico, agrotóxicos, quem somos nós para ousar afastá-los do mercado de trabalho, tirando-lhes a chance incrível de ser operário-padrão. VAMOS SEM DEMORA FAZER A INCLUSÃO SOCIAL.

A PROPOSTA DO MILÊNIO

Tudo isso é porque lá naquela tal oficina do congresso dos caps, uma pessoa sugeriu que a indústria farmacêutica estaria interessada em financiar uma cooperativa de usuários de serviço de saúde mental.
Ora, fazendo isso, fecha-se o ciclo.
As pessoas enlouquecem por são coisificadas nas suas relação de trabalho. São levadas aos hospitais psiquiátricos, onde são tratadas com remédios de alto e baixo custo, fabricados por multinacionais e empresas brasileiras da indústria farmacêutica.
Quando melhoram um pouco são recolocadas no trabalho, via oficinas de geração de renda. Estas são muito semelhantes àquelas que os fizeram adoecer, com a vantagem de serem financiadas pela indústria que fabrica os remédios.
Ainda por cima, intermediada por uma falsa ciência chamada psiquiatria tradicional, que endossa tudo isso e legitima essa construção perante: a sociedade, as famílias e os próprios loucos, que acham muito bom poder enlouquecer novamente nas oficinas do hospício. Tudo isso não é maravilhoso???
Nossa verdadeira luta será sempre a de derrubar esse muro mental que separa: loucos e normais, negros e brancos, homens e mulheres, gays e heteros...
Nesse sentido, uma organização de trabalho que seja solidária, democrática, cooperativa, amorosa, ética, parece a verdadeira resposta para que nós, portadores de transtornos mentais, os ditos loucos, possamos começar a espalhar nossa doce loucura mundo afora.
Como dizia esse outro maluco do bem, Francisco de Assis: a loucura é o sol que não deixa a razão apodrecer. Vamos dar mais esse exemplo aos chamados normais, criando formas de trabalho que possam ser saudáveis e prazerosas. Vamos reinventar um mundo tolerante e tesudo. E que se inclua quem quiser, ou puder.

Nilo Marques de Medeiros Neto
Representante do Movimento da Luta Antimanicomial junto à Comissão Intersetorial de Saúde Mental do Conselho Nacional de Saúde – Brasília/DF

terça-feira, junho 22, 2004

Considerando que verdadeira mudança é cultural.
Considerando que a loucura é muito mais que doença mental.

Convocamos todos os companheiros e companheiras para a primeira caminhada do orgulho louco.

Segundo sábadfo de novembro, 14 horas.

Saindo do centro de Floripa em carreata até as proximidades da Colônia Santana (São José – SC).

Ocupação do jardim do manicômio, com manifestações artísticas e microfone aberto a todos.

Dia de exercer as estranhezas legítimas.

Pelo SUS e pela Rede Substitutiva de Serviços de Saúde Mental.

Contra qualquer tipo de manicômio (inclusive o mental).

Dia de luta contra qualquer tipo de preconceito.



Nilo Neto





orgulho louco Posted by Hello

terça-feira, junho 01, 2004

Manifesto


Meu senso de liberdade é tão desesperado, quanto precoce.

Recordando com meus pais, reagia com vigor, já na mais tenra idade, a qualquer tentativa de contenção. Há inclusive episódio na memória da família, quando eu ainda recém aprendia a andar. Para poder dar conta das tarefas cotidianas, minha mãe colocou-me num quarto, com cercadinho de madeira, que me impedia de caminhar livremente pela casa, causando pequenos transtornos. Dizem eles, não me conformei enquanto não a tiraram, chacoalhando a tal cerca, até que me livrassem.

Mais tarde, o amor profundo pelo vento. Força da natureza que até hoje me faz parar e, sem qualquer tipo de pensamento, aproveitar as sensações por ele provocadas.

Então companheiros, compreendam a minha indignação por ver portadores de transtornos presos, sem julgamento, pelo crime de ter uma doença mental, nos muitos hospícios desse Brasil. E ainda são mais de 60.000 em pleno ano de 2002. Isso, para lembrar os muitos companheiros torturados e mortos nestes mesmos locais infernais, denunciados pelo jornalista Milton Mendes, no livro: A Instituição Sinistra: Mortes Violentas em Hospitais Psiquiátricos no Brasil, organizado pelo Conselho Federal de Psicologia e o famoso "Canto dos Malditos", do não menos brilhante Austregésilo Carrano.

Por favor, respeitem minha indignação.

Falo em nome dos que foram excluídos, explorados e roubados em todos os sentidos, por estes senhores, barões da indústria da loucura. Falo em nome dos que foram destituídos dos mais básicos direitos humanos: para dar lucro aos donos dos hospitais psiquiátricos, da indústria farmacêutica e aos governantes que concordaram com todas estas barbaridades. (e ainda concordam)

A morte da cidadania, da liberdade, é mais terrível que a morte do corpo. Chega dos mortos-vivos gerados no interior dos manicômios, pelo total abandono e falta de tratamento médico digno.

Chega do desperdício de talentos e desejos, pelo rótulo preconceituoso e inútil, que recebemos em alguns consultórios de profissionais de saúde e hospícios. Nós podemos, sim, encontrar nosso espaço dentro da vida. Somos capazes e queremos ser ouvidos.

Não queremos caridade, queremos oportunidade.

Somos os mais sensíveis às doenças sociais e da família. Não aceitamos mais pagar o preço dos erros coletivos.

Respeitem nossas indicações do que já não funciona. Aproveitem nossa luz. Sempre existimos e não deixaremos impune, a vontade dos muitos infelizes poderosos, de nos fazerem calar.

Até quando teremos que anestesiar nossas capacidades, para suportar viver nessa estrutura social incapaz de satisfazer aos desejos mais simples da maioria, como: casa, comida e habilidade para sonhar?

Minha ira é fundada e compatível.

Não me acusem de louco, de bipolar.

Não preciso da bondade e da piedade de vocês.

Preciso, sim, do apoio incondicional, da solidariedade e da vontade de lutar contra toda essa vergonha, para acabar de vez com essa verdadeira miséria humana.

Pelo fim dos manicômios, hospitais e clínicas psiquiátricas.

Pelo fim dos muros, preconceitos e tratamentos prisionais para portadores de transtorno mental que não cometeram crime algum.

Pela rede substitutiva de atenção psicossocial, pela autonomia, liberdade e cidadania dos usuários de serviços de saúde mental do SUS.

Pelo fim do eletro-choque.

Pelo fim do comércio e lucro sobre a dor humana, a doença e o sofrimento de qualquer tipo.

Exija do seu Prefeito, Vereador, que se construa uma rede de atenção psicosocial no seu município.

Divulgue e faça valer a lei federal 10.216/01, a lei da reforma psiquiátrica no Brasil. Ela é a garantia de uma vida melhor para todos nós.



Nilo Marques de Medeiros Neto

Usuário de Seviço de Saúde Mental do SUS (Sistema Único de Saúde)

quinta-feira, maio 27, 2004

quarta-feira, maio 05, 2004

Tem um jeito bem fácil de tirar a prova, se o cara é bipolar, canalha
ou os dois.
Basta fazer o tratamento direitinho, com: medicação, terapia, arte,
essas coisas multidisciplinares que vocês já me ouviram falar outras
vezes.
Pra convencer o figura, basta dizer que ele não tem nada a perder
mesmo. Que pior não fica, essas coisas. E também que essa proposta de
tratamento depende do desejo dele, que ele sempre terá sua liberdade
preservada.
Além disso, claro, tentar abandonar esta causa de tantas dores: a
culpa. Tanto do portador, quanto da família. Que tal uma anistia:
ampla, geral e irrestrita? Todo mundo pensando menos em culpa e mais
nas possibilidades dessa mudança, menos no passado, mais no presente
e no futuro (principalmente no presente). Tudo isso regado com muito
carinho e desejo de estar próximo do coração do outro, ouvi-lo sem
julgá-lo(por sinal, nosso desassossego está recheado disso tudo).
Finalmente, procurar um CAPS, que é público e gratuito.
Os endereços dos CAPS (Centro de Atenção Psicosocial) de todo Brasil,
estão neste site aqui:
www.inverso.org.br (procure em redes assistenciais)

Nilo Neto
Mensagem a uma familiar

Só pra tentar pensar nas palavras e significado delas.

Que tal recuperação, ao invés de cura?

Que tal vida equilibrada, ao invés de vida normal?

Que tal experiência subjetiva radical, ao invés de surto?

Que tal atenção psicosocial, ao invés de saúde mental?

Que tal portador de trasntorno mental, cliente, sobrevivente, usuário
de serviço de atenção psicosocial, ao invés de paciente ou doente
mental?

Que tal esperança ao invés de culpa?

Que tal informação ao invés de preconceito?

Que tal amor ao invés de medo?

Dizem que só se conhece duas maneiras de perder a identidade, o
chamado ego. Loucura e morte.
O medo de ambas é compreensível.
Mas ambas fazem parte da da vida.
É muito legal ter familiares aqui conosco.
Que tal nos contar alguma coisa sobre o teu irmão que te faça ter
orgulho dele?
A minha mãe adora assitir a Hebe e ler a revista Cláudia. Nem por
isso eu deixei de amá-la. Além disso, ela faz uma tainha recheada que
é de fechar o comércio.

Abraço

Nilo Neto

sexta-feira, abril 30, 2004

Se me perguntassem: Nilo, o caps é ruim?

Eu diria que não. Mas pode melhorar muito. Não pretendo ser visto como oposição a toda a reforma psiquiátrica. Mas muito pouco se investe na rede, na cultura, na autonomia dos usuários. Tudo está muito devagar. Nós do controle social não temos a obrigação de conhecer os caminhos legais e nem os político-partidários. Nosso papel é contribuir para a construção de uma política de saúde mental em sintonia com nossas realidades e nossos desejos.
Será que esperamos demais do governo?

O Eduardo Mourão de Vasconcelos, no seu último livro sobre empowerment, até onde compreendi, diz que o problema é da nossa cultura latina, hierarquizada e que valoriza demais as redes de relacionamento, inclusive o familiar. Diferente dos povos do norte da Europa e anglo-saxões, que dão estímulo para que as pessoas sejam mais autônomas e até individualistas. Ele diz também que o fato de sermos um país capitalista periférico, determina que a luta dos usuários seja por direitos básicos, como alimentação e transporte. Que as discussões relacionadas a outros direitos acabam ficando abafadas pela situação de miséria de muitos dos nossos companheiros usuários e suas famílias. Diz ainda o Eduardo, que nossa classe média é profundamente preconceituosa com a doença mental, dificultando a adesão de usuários com uma maior formação acadêmica e articulação política.
Então estamos remando contra uma grande maré, quando lutamos pela formação política dos usuários e o estímulo da construção de associações que sejam terreno fértil, para nossos sonhos de vida melhor.

Mas Nilo, pra você tudo é mais fácil. Sua família lhe ajuda. Você tem um carro e fez faculdade. Você nunca foi internado nem tomou eletro-choque.

Não se pode comparar as dores. Eu sei das minhas limitações e superações. O fato de eu estar ainda participando dessa luta é um sinal de que realmente consegui parar de olhar somente para meu umbigo e fica me achando um coitadinho. Acho sim, que poderia estar fazendo mais do que faço hoje. Mas resolvi tirar a prova dos 9, para saber se o SUS é para todos, não só para os pobres. E saber se já existe alguma possibilidade de eu conseguir aumentar meu poder contratual, como dizem os livros, através dos espaços propostos pelo CAPS, os técnicos, os governos, as associações e o terceiro setor.

Então clareiem minha cabeça e meu coração.

Respondam, onde mora a felicidade?

18 de maio está chegando. Vamos aproveitar para, além de festejar as conquistas, fazermos algumas reflexões sobre o que queremos da atenção psicosocial.

Estarei, a convite, no I Seminário do Movimento da Luta Antimanicomial "Por uma sociedade sem manicômio", que está sendo realizado pelo Núcleo da Luta de Criciúma, Santa Catarina. As companheiras Dipaula e Edelu estão organizando o evento. Certamente vai ser uma boa troca.

Grande abraço, saúde e sorte.

Nilo Neto



quarta-feira, abril 28, 2004

Texto proferido durante a Conferência Estadual de Saúde Mental – Florianópolis/SC 2001.

Agradeço a oportunidade de estar aqui entre vocês. Quem me conhece há mais tempo sabe que a trajetória entre o dia do meu diagnóstico como portador do transtorno afetivo bipolar e hoje, fazendo essa fala, é cheia de percalços, dores, alegrias e principalmente muito aprendizado. Obrigado pai e mãe, pelo apoio incondicional e paciência nas horas mais duras.
De todas as maneiras possíveis para começar essa pequena conversa, talvez a menos simpática seja a de, já nas primeiras palavras, desabridamente, escancaradamente, desavergonhadamente dizer: ninguém é louco e ao mesmo tempo, todos somos.
Esse tipo de afirmação pode suscitar inúmeras novas idéias ou contraposições, mas vou procurar me deter em apenas duas ou três.
A primeira que me ocorre, é o tema proposto por esta conferência: cuidar sim, excluir não. Se partirmos do pressuposto que qualquer pessoa sob determinadas circunstâncias pode vir a enlouquecer, começamos a entender melhor a situação. E porque então algumas pessoas são diagnosticadas e outras não? Deve-se ao fato de que foi estabelecido por nossa cultura e nossa época, que certos comportamentos são socialmente inaceitáveis e o doente mental não seria capaz dessa convivência, estando em surto. Alguns dizem que a internação só acontece se a pessoa estiver pondo em risco a sua vida ou a de outros. Conheço vários motoristas que já deveriam estar internados há muito tempo. E certos políticos então, que com suas roubalheiras colocam em risco a vida de populações inteiras. Mas não vim fazer denúncia.
Queria dizer que quando todos compreenderem que também estão sujeitos a algum tipo de loucura, fica mais fácil deixar de excluir, de menosprezar, de maltratar... Uma das facetas mais doloridas da trajetória do portador de doença mental é perceber que o que ele diz ninguém mais ouve. É como no ditado: “deixa, deixa ele falar, o médico disse pra não contrariar”.
E quando se fala em cuidar, isso me soa meio paternal demais. Cuidar deve significar: dar emprego, dignidade, ouvir, estabelecer relações verdadeiramente afetuosas, participar dos movimentos sociais que privilegiem a melhora na vida dos usuários, como o movimento da luta antimanicomial ou o projeto fênix. Cuidar não significa entupir de remédios e ter vergonha dos vizinhos porque o filho é esquizofrênico e fala de um jeito diferente.
Outra interpretação muitíssimo relevante dessa frase: ninguém é louco e ao mesmo tempo, todos somos, significa romper a hierarquia estabelecida dentro de muitos consultórios psiquiátricos, psicológicos, nas oficinas dos NAPS e CAPS, para que de uma vez por todas possamos perceber que a possibilidade de real melhora na vida de todos os envolvidos, inclusive médicos, psicólogos, terapeuta, etc, está no estabelecimento de laços entre iguais, onde cada um participa dessa construção trazendo aquilo que tem de melhor, seja um conhecimento teórico obtido nas universidades e através de outros estudos, seja com a prática diária da convivência com o portador de um transtorno mental. Só com este entendimento poderemos realmente ultrapassar a exclusão e criar um ambiente propício para a recuperação ampla do portador de sofrimento psíquico.
Finalmente, a frase: ninguém é louco e ao mesmo tempo, todos somos, significa o fim dos hospitais psiquiátricos, esses antros de horrores morais, sociais e psicológicos. Só com a queda daqueles muros poderemos dormir tranqüilos e saber que mais nenhum ser humano será vítima de eletro-choque e outras torturas, para proporcionar o enriquecimento de meia dúzia de médicos safados, que não se cansam de vampirizar a vida de almas, já por si só, sofredoras.
Gostaria de encerrar minha participação, citando um texto de Clarice Lispector que traduz toda a possibilidade de um diferente.
Cito:

UM PATO FEIO

Mas foi no céu que se explicou seu braço desajeitado: era asa. E o olho um pouco estúpido, aquele olhar estúpido dava certo nas larguras. Andava mal, mas voava. Voava tão bem que até arriscava a vida, o que era um luxo. Andava ridículo, cuidadoso. No chão ele era um paciente.

Nilo M. de Medeiros Neto

terça-feira, abril 27, 2004

Brasileiro, nascido em 1969, filho e neto de militares e comerciantes, estudei a vida inteira em colégios católicos. Perdoem se em algum momento não demonstrar uma linguagem ou pensamento amadurecidos, em termos de transformação social.

A mim me parece que a verdadeira possibilidade revolucionária na estrutura da rede substituviva de serviços de saúde mental, está nas associações, cooperativas, núcleos da luta antimanicomial. Daí poderíamos avistar no horizonte das utopias, uma mudança autêntica dos padrões até então adotados pela sociedade, em relação à atenção psicosocial.

Dia desses ouvi, que o comunismo nunca funcionou porque os proletários, no fundo, querem ser burgueses e não que desapareça a miséria. Então poderíamos dizer, que o sonho dos loucos é ser normais, e não que a loucura desapareça. É o individualismo sobrepujando o coletivo, como sempre. Se pelo menos eu deixar de ser pobre, ou louco, que se danem os outros. É por isso também que as lutas que conseguem mobilizar os usuários também são assistencialistas: o passe, a comida e o “de volta pra casa”. Aí começa a ficar interessante ser usuário. Na medida em que penso: sou louco, mas: como de graça todo dia, tenho minhas passagens de ônibus garantidas, passo o dia lá, faço umas oficinas de artesanato, vejo televisão, bato papo com outros companheiros usuáiros, fumo um cigarrinho, não incomodo minha família e volto pra casa a noite. E tudo permanece como está.

A participação dos usuários em associações estruturadas, exige um certo desejo de encontrar saídas que possam ser compartilhadas com o grupo. Exige barriga cheia, alguma leitura e muita discussão. Porque não nos aproximamos de movimentos sociais bem sucedidos, com o: dos sem-terra, dos sem-teto, dos companheiros do DST/AIDS? Será que nossa desorganização, nossa não mobilização é somente causada por nosso desinteresse? Quem lucra se permancer tudo como está? Estamos inseridos num contexto maior, que nos engole sem que percebamos. Foram 20 anos de ditadura, 150 anos de hospícios e 500 anos de exploração do homem pelo homem.

A verdadeira revolução estaria em lutar pela extinção da loucura, doença social que arranca a cidadania das pessoas desequilibradas mentalmente. Ou todo mundo é louco, ou ninguém é. Esse deveria ser nosso verdadeiro lema. Não apenas lutar contra as instituições, que são o reflexo desse pensamento. O combate à praga do pensamento manicomial, que ainda governa muito da nossa tímida reforma psiquiátrica e dos atores nela envolvidos.

E porque a associação é a geradora desta luz? Porque seria uma verdadeira possibilidade de discutir e executar, via geração de renda, uma nova postura entre usuários. Já que mal conseguimos avistar uma autêntica revolução, com os loucos tomando o poder nos hospícios, CAPS, quartéis, igrejas e bancos, que pelo menos haja um amadurecimento político entre nós, a ponto de conseguirmos criar conselhos gestores em cada unidade de atenção psicosocial deste país.

Muito longe de estar livre destes problemas, estou pra lá de mergulhado no desejo de: deixar de ser usuário, ter minha casinha com meu amor, ser normal, ter salário bom, pagar imposto alto sem retorno social, viajar nas férias, ter um filhinho, votar nas eleições e esquecer em quem votei, assistir TV a cabo, comer do bom e do melhor e nunca mais ter que voltar lá no CAPS e na Associação dos Usuários. Esquecer dessa luta inglória em que só se fala e pouco se faz. Inclusive eu. Afinal, tenho lá minha mesada que papai me dá e pego meu remédio no SUS, de graça. Prá que vou me incomodar, né? Pra depois ser taxado de aproveitador, de deitado, de burguês querendo ir pro céu porque ajuda os necessitados, de riquinho metido a besta? Afinal, o CAPS, o SUS, tudo o que vem do governo, só deve ser para os pobres. E com esse tipo de pensamento, continuamos perpetuando o fosso que hoje nos separa e nos leva para os abismos: da indiferença, do tráfico, do sequestro e dos manicômios.

Não existe moral da história. Estamos em construção permanente. Eu estou, no momento, de saco cheio. E haja carbo lítio pra segurar a onda. Não queria ser só mais um dente na engrenagem. Queria ser feliz logo. Queria ver as coisas acontecendo e ser, eu mesmo, um feliz exemplo da volta por cima. Mas não sei bem se estou adiante do meu tempo ou se sou só mais um tolo inocente, que acredita na humanidade e nas mudanças. Que deus tenha piedade de nós. E que ele permaneça sendo: avaiano, flamenguista e brasileiro.