Vermes
Não há palavra, ato ou vontade
Que comova o verme
O verme não se engaja em nada
Está sempre em sua sanha desenfreada
Pelo podre, morto, perverso
Mal vê, ao seu lado
Outros vermes
Igualmente solitários
Numa multidão de vermes
Devorando tudo à qualquer preço
Até que não sobre nada
Além de ossos
E fim
Sem saudades
De sua jornada
Charles Bukowski
terça-feira, junho 26, 2007
terça-feira, abril 24, 2007

Eu achava que não fosse postar mais nada nesse blog. Deixá-lo assim, somente com a fase mais ingênua da militância. Mas não seria justo comigo e com os leitores, não participar das mudanças que ocorreram na minha vida nos últimos dois anos. Então segue a barca, rio acima, lutando contra o fluxo e o que o rio traz. Abraço
Nilo Neto
(texto preparado a pedido, para fazer parte das discussões do Fórum Catarinense de Saúde Mental, ocorrido em Brusque, SC, abril de 2007)
Porque
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Queridos amigos e amigas, usuários e familiares da saúde mental em Santa Catarina
Eu sinceramente acho que não tem jeito mesmo. Que a gente nasce pra sofrer, num mundo desgraçado e que o melhor é aprender a sofrer calado, que é pra não chatear muito quem tiver em volta. É claro que tem gente que consegue furar essa bolha que a doença mental cria em volta da gente e voltar pra vida em sociedade. Mas não são muitos e eu certamente não sou um deles. Olha que eu andei por aí, tentei vários tipos de tratamentos e abordagens. E nada. Estou no buraco negro, sem perspectiva de sair.
Teve uma época que eu participei dos movimentos sociais. E cheguei mesmo a acreditar que havia uma saída coletiva pros problemas individuais. Que a gente se reunir com outras pessoas que tivessem passado por sofrimentos semelhantes aos nossos poderia mostrar novas formas de ver a vida. E que isso fortaleceria a gente, daria coragem pra se reerguer. Essa Associação de Usuários e Familiares é mais uma tentativa dessas.
Mas eu caí mais uma vez e não vi nenhuma ajuda útil desde então. O problema com o movimento social da saúde mental é que ele é organizado e dirigido pelos profissionais da saúde. Pessoas que, mesmo quando bem intencionadas, já estão ganhando o seu dinheiro graças ao surto alheio. E até falam em geração de renda pros usuários. Mas é tudo muito frágil, insipiente. A renda gerada nessas oficinas é bem pouca. E não atinge as necessidades de quem queira fazer um vôo um pouquinho mais alto, se dá para os que querem pouco. Não tem lugar pra usuário classe média no movimento social ou no caps. Esses problemas, a Associação de Usuários e Familiares em âmbito estadual poderia ajudar a resolver. Trocando experiências entre as associações municipais. Nesse momento, a partir da minha experiência em duas gestões junto a associação amealoucamente, vejo alguns desafios para as Associações:
· Descobrir de onde se pode conseguir fontes de financiamento, para: as oficinas, participação dos usuários nos eventos, da manutenção de representantes no controle social e que ela possa ter sede própria, desvinculada do caps.
· Descobrir como se consegue motivar os usuários para que eles participem das ações da associação, trazendo sua experiência e sugestões e participando animadamente das atividades
· Ampliar o campo de atuação para que a associação trabalhe com a saúde mental de todo o município e não só dos usuários do caps.
· Criar laços com outros movimentos sociais, para fortalecer a solidariedade e a troca de experiências entre a saúde mental e os outros.
Todo mundo ganha dinheiro com a loucura, menos os loucos. Então a verdade é que somos excluídos, jogados fora, não tem lugar no mundo pra nós, porque não produzimos nem consumimos. E nesse mundo a gente vale pelo que a gente tem de dinheiro (no fundo eu custo a acreditar nisso, mas a realidade me atropelou, como eu disse). Eu estou ainda tentando mudar um pouco isso, essa minha sensação de não ter valor, oferecendo minhas idéias e experiências para compartilhar nos eventos e na produção intelectual em torno do fenômeno loucura. Mas eu acho que nessas alturas do campeonato eu deva ser remunerado pra isso. Não tenho encontrado muito espaço. Quem sabe no futuro as pessoas, leia-se trabalhadores da saúde mental, reconheçam meu valor, meu trabalho e minhas necessidades. Existe uma exceção, que e é o Jeferson. Eu não estou participando desse evento porque a organização não viu interesse em me remunerar. Mas graças a um pedido do Jeferson para que escrevesse umas palavras, devidamente remunerado, aqui vai minha participação.
Desejo que os que fizerem parte dessa Associação consigam realizar algumas mudanças. O trabalho é de formiga mesmo. Talvez nem seja pra gente ver. Mas temos que reconhecer que já foi mais difícil. Já teve fogueira, eletro-choque, internação pro resto da vida. Aliás, essas coisas ainda acontecem em alguns lugares.
Neste momento um passo interessante seria a criação de algum canal de comunicação entre as associações dispostas a participar da Associação estadual. Isso poderia se fazer via internet ou pelo correio comum.
Também seria interessante discutir que formato essa associação deve ter, se é o momento de oficializar, registrar em cartório, com toda documentação e custos que isso exige, ou de ir realizando alguns encontros e atividades pra amadurecer a participação dos associados. Pra que eles percebam quais são as principais reivindicações e como se pode resolvê-las.
Quem sabe é o momento de perceber a importância dos espaços do controle social, principalmente do Conselho Estadual de Saúde e do Colegiado de Saúde Mental. A grande pergunta seria: como está andando a saúde mental no Estado de Santa Catarina hoje? Uma dica pra quem quiser se envolver com o controle social do SUS, é ter a capacidade de entender como funciona o financiamento. Quem souber onde está o dinheiro, saberá onde está a política estadual de saúde mental. Infelizmente o assunto é espinhoso e entendê-lo é um grande desafio. Mas quem sabe alguém, algum familiar ou usuário que tenha conhecimentos em contabilidade, possa se oferecer pra aprender e explicar para os outros.
Eu tenho um sonho de transformar a Colônia Santana num mega caps, com muita cultura e geração de renda. Vi fazerem isso na cidade de Campinas. É possível. Acreditem. Esse é um trabalho da Associação Estadual, já que o ipq faz parte do governo estadual. Tem uma outra coisa que me incomoda, é o fato de São José ser o único município grande de Santa Catarina, que não possui CAPS. Isso é uma vergonha. Isso é subserviência política aos manicomiais donos de hospitais da área.
Também se poderia começar a pensar num banco de dados com as informações primordiais dos Associados em todo o estado.
Quem sabe um boletim informativo, que poderia ser distribuído nos Caps e principais postos de saúde de cada município associado, trazendo textos e desenhos dos usuários e familiares. A iniciativa privada poderia participar, através de pequenos anúncios, para financiar a elaboração e distribuição do boletim.
A Associação Estadual poderia fazer um concurso cultural para divulgação da lei 10.216.
Enfim, são algumas sugestões que trago pra vocês.
Então eu fico aqui de longe desejando boa sorte e sonhando que a Associação possa me contratar pra dar alguns cursos e consultoria. Seria bom pra todos, porque forçaria uma organização mais madura da Associação e eu me sentiria reconhecido no meu trabalho.
Muito obrigado
Porque
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Queridos amigos e amigas, usuários e familiares da saúde mental em Santa Catarina
Eu sinceramente acho que não tem jeito mesmo. Que a gente nasce pra sofrer, num mundo desgraçado e que o melhor é aprender a sofrer calado, que é pra não chatear muito quem tiver em volta. É claro que tem gente que consegue furar essa bolha que a doença mental cria em volta da gente e voltar pra vida em sociedade. Mas não são muitos e eu certamente não sou um deles. Olha que eu andei por aí, tentei vários tipos de tratamentos e abordagens. E nada. Estou no buraco negro, sem perspectiva de sair.
Teve uma época que eu participei dos movimentos sociais. E cheguei mesmo a acreditar que havia uma saída coletiva pros problemas individuais. Que a gente se reunir com outras pessoas que tivessem passado por sofrimentos semelhantes aos nossos poderia mostrar novas formas de ver a vida. E que isso fortaleceria a gente, daria coragem pra se reerguer. Essa Associação de Usuários e Familiares é mais uma tentativa dessas.
Mas eu caí mais uma vez e não vi nenhuma ajuda útil desde então. O problema com o movimento social da saúde mental é que ele é organizado e dirigido pelos profissionais da saúde. Pessoas que, mesmo quando bem intencionadas, já estão ganhando o seu dinheiro graças ao surto alheio. E até falam em geração de renda pros usuários. Mas é tudo muito frágil, insipiente. A renda gerada nessas oficinas é bem pouca. E não atinge as necessidades de quem queira fazer um vôo um pouquinho mais alto, se dá para os que querem pouco. Não tem lugar pra usuário classe média no movimento social ou no caps. Esses problemas, a Associação de Usuários e Familiares em âmbito estadual poderia ajudar a resolver. Trocando experiências entre as associações municipais. Nesse momento, a partir da minha experiência em duas gestões junto a associação amealoucamente, vejo alguns desafios para as Associações:
· Descobrir de onde se pode conseguir fontes de financiamento, para: as oficinas, participação dos usuários nos eventos, da manutenção de representantes no controle social e que ela possa ter sede própria, desvinculada do caps.
· Descobrir como se consegue motivar os usuários para que eles participem das ações da associação, trazendo sua experiência e sugestões e participando animadamente das atividades
· Ampliar o campo de atuação para que a associação trabalhe com a saúde mental de todo o município e não só dos usuários do caps.
· Criar laços com outros movimentos sociais, para fortalecer a solidariedade e a troca de experiências entre a saúde mental e os outros.
Todo mundo ganha dinheiro com a loucura, menos os loucos. Então a verdade é que somos excluídos, jogados fora, não tem lugar no mundo pra nós, porque não produzimos nem consumimos. E nesse mundo a gente vale pelo que a gente tem de dinheiro (no fundo eu custo a acreditar nisso, mas a realidade me atropelou, como eu disse). Eu estou ainda tentando mudar um pouco isso, essa minha sensação de não ter valor, oferecendo minhas idéias e experiências para compartilhar nos eventos e na produção intelectual em torno do fenômeno loucura. Mas eu acho que nessas alturas do campeonato eu deva ser remunerado pra isso. Não tenho encontrado muito espaço. Quem sabe no futuro as pessoas, leia-se trabalhadores da saúde mental, reconheçam meu valor, meu trabalho e minhas necessidades. Existe uma exceção, que e é o Jeferson. Eu não estou participando desse evento porque a organização não viu interesse em me remunerar. Mas graças a um pedido do Jeferson para que escrevesse umas palavras, devidamente remunerado, aqui vai minha participação.
Desejo que os que fizerem parte dessa Associação consigam realizar algumas mudanças. O trabalho é de formiga mesmo. Talvez nem seja pra gente ver. Mas temos que reconhecer que já foi mais difícil. Já teve fogueira, eletro-choque, internação pro resto da vida. Aliás, essas coisas ainda acontecem em alguns lugares.
Neste momento um passo interessante seria a criação de algum canal de comunicação entre as associações dispostas a participar da Associação estadual. Isso poderia se fazer via internet ou pelo correio comum.
Também seria interessante discutir que formato essa associação deve ter, se é o momento de oficializar, registrar em cartório, com toda documentação e custos que isso exige, ou de ir realizando alguns encontros e atividades pra amadurecer a participação dos associados. Pra que eles percebam quais são as principais reivindicações e como se pode resolvê-las.
Quem sabe é o momento de perceber a importância dos espaços do controle social, principalmente do Conselho Estadual de Saúde e do Colegiado de Saúde Mental. A grande pergunta seria: como está andando a saúde mental no Estado de Santa Catarina hoje? Uma dica pra quem quiser se envolver com o controle social do SUS, é ter a capacidade de entender como funciona o financiamento. Quem souber onde está o dinheiro, saberá onde está a política estadual de saúde mental. Infelizmente o assunto é espinhoso e entendê-lo é um grande desafio. Mas quem sabe alguém, algum familiar ou usuário que tenha conhecimentos em contabilidade, possa se oferecer pra aprender e explicar para os outros.
Eu tenho um sonho de transformar a Colônia Santana num mega caps, com muita cultura e geração de renda. Vi fazerem isso na cidade de Campinas. É possível. Acreditem. Esse é um trabalho da Associação Estadual, já que o ipq faz parte do governo estadual. Tem uma outra coisa que me incomoda, é o fato de São José ser o único município grande de Santa Catarina, que não possui CAPS. Isso é uma vergonha. Isso é subserviência política aos manicomiais donos de hospitais da área.
Também se poderia começar a pensar num banco de dados com as informações primordiais dos Associados em todo o estado.
Quem sabe um boletim informativo, que poderia ser distribuído nos Caps e principais postos de saúde de cada município associado, trazendo textos e desenhos dos usuários e familiares. A iniciativa privada poderia participar, através de pequenos anúncios, para financiar a elaboração e distribuição do boletim.
A Associação Estadual poderia fazer um concurso cultural para divulgação da lei 10.216.
Enfim, são algumas sugestões que trago pra vocês.
Então eu fico aqui de longe desejando boa sorte e sonhando que a Associação possa me contratar pra dar alguns cursos e consultoria. Seria bom pra todos, porque forçaria uma organização mais madura da Associação e eu me sentiria reconhecido no meu trabalho.
Muito obrigado
sexta-feira, novembro 19, 2004
Caminhada Crônica
Talvez tenha sido mera coincidência, mas o fato é que essa nossa ilha capital se chamava Vila de Nossa Senhora do Desterro, em seu longo período pré-republicano de existência. Esse nome refere-se à passagem bíblica chamada “Fuga do Egito”, onde nossa senhora escapa da ira do rei Herodes, carregando nos braços o menino Jesus, acompanhada de José.
Desde o começo, nossa cidade teve a vocação de abrigar todo tipo de: degredado, fugido, condenado, herege, bruxa e pirata. Mais modernamente: hippies, esotéricos, alternativos, anarquistas, e toda uma tribo de outsiders vêm aportando nesse nosso pedacinho de terra perdido no mar.
E se esses desterrados, saudosos de suas terras e sonhos, conseguiram criar por aqui um clima de magia, por outro lado, enterraram fundo na alma de nossa gente uma necessidade de resistir à todo tipo de opressão.
Para citar as mais recentes, temos o genocídio praticado na ilha de Anhatomirim, no final da década de 1890, que levou deste mundo os rebelados contra a nova oligarquia republicana, que empurrava garganta abaixo seu domínio, como naquele outro famoso episódio, conhecido por Revolta de Canudos, e que aqui deixou marcas de dor nas famílias que viram seus filhos sendo cruelmente assassinados pelo famigerado Coronel Moreira César.
Este senhor era o preposto do então presidente Floriano Peixoto. Para conter sua trilha de matança das lideranças políticas locais, fieis a monarquia, acabou sendo homenageado com o nome da cidade, Florianópolis.
Menos de um século depois, o episódio da Novembrada, marcou o fim da Ditadura Militar no Brasil, graças a uma fortíssima manifestação popular capaz de dar tapas na cara de Generais e Ministros, em plena praça XV. Naquela ocasião, o presidente Figueiredo descerrou placa homenageando o tal Floriano. Esta foi então pisoteada, queimada, mijada e jogada nas portas do palácio do governo.
Este ano tivemos outro embate histórico que culminou com a vitória do movimento do passe livre, que conseguiu mais uma vez demonstrar a força do povo unido, contras as barbaridades da elite burra. Mesmo que persista usurpando os direitos básicos de educação, saúde e lazer dos cidadãos. Todos seriamente comprometidos pela corja de ladrões que exploram o suor e sangue da população, através de um transporte publico caro e de péssima qualidade.
Neste contexto, no ultimo dia 13 de novembro aconteceu, aqui em Floripa, a primeira caminhada do orgulho louco. Sob os auspícios da bem sucedida parada do orgulho gay, associada ao ideário de ocupação dos latifúndios improdutivos do MST, éramos cerca de 60 pessoas. Na primeira parte do acontecimento, que começou cerca de 11 da manhã, manifestações culturais, políticas e sociais, tomaram conta do largo da alfândega. Os passantes puderam observar, ainda um pouco surpresos, de que forma pretendemos construir a identidade do novo louco. Outrora excluído e abandonado, hoje ele vem pra rua gritar que precisamos viver num mundo mais: solidário, cooperativo, inclusivo e tolerante com as diferenças.
Na segunda parte do dia, por volta das 14 horas embarcamos em ônibus cedido pelos companheiros do SINTUFSC (Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Federal de Santa Catarina), parceiros desde a primeira hora e rumamos a antiga Colônia Santana no vizinho município de São Jose. Hoje chamado de Instituto de Psiquiatria, maior hospício público de Santa Catarina.
Lá esticamos nossas faixas e fizemos um minuto de silêncio, em homenagem aos companheiros que permanecem presos na instituição, depois palavra aberta aos presentes que disseram palavras de incentivo aos internados, como: paz, harmonia, saúde e outras no sentido da transformação do hospital em espaço cultural, de geração de renda e vida nova aos “chamados” doentes mentais.
Questão de justiça lembrar o apoio imprescindível do apoio da presidência da Assembléia Legislativa, fornecendo material de divulgação, do coletivo da Radio de Tróia, na divulgação e participação efetiva em todos os momentos do evento, de integrantes do Maracatu Arrasta Ilha, do Fórum Catarinense de Saúde Mental, dos músicos do grupo Parasol, e de toda a galera que esteve de corpo e alma nessa empreitada diária de mudar o mundo.
Ano que vem, no segundo sábado de novembro, estaremos de volta, mais atilados e certeiros, quais arqueiros zen, com nossas flechas-pensamentos, prontos a derrubar os muros do preconceito, seja ele de que tipo for.
Nós, loucos organizados, queremos a felicidade que nos cabe. Falando nisso, o que você faz com sua loucura? Venha enlouque-ser com a gente. Mudar o mundo é mudar a si mesmo. Quanto mais simples, maior o espanto.
Talvez tenha sido mera coincidência, mas o fato é que essa nossa ilha capital se chamava Vila de Nossa Senhora do Desterro, em seu longo período pré-republicano de existência. Esse nome refere-se à passagem bíblica chamada “Fuga do Egito”, onde nossa senhora escapa da ira do rei Herodes, carregando nos braços o menino Jesus, acompanhada de José.
Desde o começo, nossa cidade teve a vocação de abrigar todo tipo de: degredado, fugido, condenado, herege, bruxa e pirata. Mais modernamente: hippies, esotéricos, alternativos, anarquistas, e toda uma tribo de outsiders vêm aportando nesse nosso pedacinho de terra perdido no mar.
E se esses desterrados, saudosos de suas terras e sonhos, conseguiram criar por aqui um clima de magia, por outro lado, enterraram fundo na alma de nossa gente uma necessidade de resistir à todo tipo de opressão.
Para citar as mais recentes, temos o genocídio praticado na ilha de Anhatomirim, no final da década de 1890, que levou deste mundo os rebelados contra a nova oligarquia republicana, que empurrava garganta abaixo seu domínio, como naquele outro famoso episódio, conhecido por Revolta de Canudos, e que aqui deixou marcas de dor nas famílias que viram seus filhos sendo cruelmente assassinados pelo famigerado Coronel Moreira César.
Este senhor era o preposto do então presidente Floriano Peixoto. Para conter sua trilha de matança das lideranças políticas locais, fieis a monarquia, acabou sendo homenageado com o nome da cidade, Florianópolis.
Menos de um século depois, o episódio da Novembrada, marcou o fim da Ditadura Militar no Brasil, graças a uma fortíssima manifestação popular capaz de dar tapas na cara de Generais e Ministros, em plena praça XV. Naquela ocasião, o presidente Figueiredo descerrou placa homenageando o tal Floriano. Esta foi então pisoteada, queimada, mijada e jogada nas portas do palácio do governo.
Este ano tivemos outro embate histórico que culminou com a vitória do movimento do passe livre, que conseguiu mais uma vez demonstrar a força do povo unido, contras as barbaridades da elite burra. Mesmo que persista usurpando os direitos básicos de educação, saúde e lazer dos cidadãos. Todos seriamente comprometidos pela corja de ladrões que exploram o suor e sangue da população, através de um transporte publico caro e de péssima qualidade.
Neste contexto, no ultimo dia 13 de novembro aconteceu, aqui em Floripa, a primeira caminhada do orgulho louco. Sob os auspícios da bem sucedida parada do orgulho gay, associada ao ideário de ocupação dos latifúndios improdutivos do MST, éramos cerca de 60 pessoas. Na primeira parte do acontecimento, que começou cerca de 11 da manhã, manifestações culturais, políticas e sociais, tomaram conta do largo da alfândega. Os passantes puderam observar, ainda um pouco surpresos, de que forma pretendemos construir a identidade do novo louco. Outrora excluído e abandonado, hoje ele vem pra rua gritar que precisamos viver num mundo mais: solidário, cooperativo, inclusivo e tolerante com as diferenças.
Na segunda parte do dia, por volta das 14 horas embarcamos em ônibus cedido pelos companheiros do SINTUFSC (Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Federal de Santa Catarina), parceiros desde a primeira hora e rumamos a antiga Colônia Santana no vizinho município de São Jose. Hoje chamado de Instituto de Psiquiatria, maior hospício público de Santa Catarina.
Lá esticamos nossas faixas e fizemos um minuto de silêncio, em homenagem aos companheiros que permanecem presos na instituição, depois palavra aberta aos presentes que disseram palavras de incentivo aos internados, como: paz, harmonia, saúde e outras no sentido da transformação do hospital em espaço cultural, de geração de renda e vida nova aos “chamados” doentes mentais.
Questão de justiça lembrar o apoio imprescindível do apoio da presidência da Assembléia Legislativa, fornecendo material de divulgação, do coletivo da Radio de Tróia, na divulgação e participação efetiva em todos os momentos do evento, de integrantes do Maracatu Arrasta Ilha, do Fórum Catarinense de Saúde Mental, dos músicos do grupo Parasol, e de toda a galera que esteve de corpo e alma nessa empreitada diária de mudar o mundo.
Ano que vem, no segundo sábado de novembro, estaremos de volta, mais atilados e certeiros, quais arqueiros zen, com nossas flechas-pensamentos, prontos a derrubar os muros do preconceito, seja ele de que tipo for.
Nós, loucos organizados, queremos a felicidade que nos cabe. Falando nisso, o que você faz com sua loucura? Venha enlouque-ser com a gente. Mudar o mundo é mudar a si mesmo. Quanto mais simples, maior o espanto.
sexta-feira, outubro 08, 2004
Companheiras e Companheiros
Quando a idéia do Fórum surgiu, havia um pequeno grupo de pessoas, parte do núcleo da luta antimanicomial em Santa Catarina, que havia se revigorado com a ida de delegação com cerca de 40 pessoas, entre usuários, familiares e trabalhadores, ao encontro nacional do movimento, na cidade de Miguel Pereira, RJ, em outubro de 2001.
Naquele mesmo ano ocorreu um evento em Florianópolis, de abrangência estadual, que buscou discutir e encaminhar propostas para a construção de uma autêntica política de saúde mental, consonante com a reforma psiquiátrica que então se instalava no país. Estávamos todos na época ainda saboreando a entrada em vigor da lei 10.216, depois de longos anos de debates no Congresso Nacional, ainda que muito desfigurada do projeto original. Coisas, como a proibição da construção de novos manicômios, que a redação final apenas sugere:
Art. 2o - Parágrafo único. São direitos da pessoa portadora de transtorno mental:
IX - ser tratada, preferencialmente, em serviços comunitários de saúde mental.
E temos vários exemplos da necessidade de que a sociedade civil organizada pressione a máquina estatal. Nesse ano de 2004 vemos mais uma onda contrária à reforma se estabelecer, com a aprovação da abertura de um hospital psiquiátrico com 50 leitos em Guaraniaçu, pelo Conselho Estadual de Saúde do Paraná, conforme documento encabeçado pelo Fórum Popular de Saúde daquele Estado, que o Deputado Rosinha do PT Paranaense endossa, dirigido ao Conselho Nacional de Saúde em agosto desse ano. Queremos isso em nossa Santa e Bela Catarina?
Hoje nos deparamos com uma situação crítica. Nosso Fórum Catarinense de Saúde Mental, inchado e institucionalizado, plataforma política para uns, substituto da inoperante coordenação de saúde mental da Secretaria Estadual de Saúde para outros, possibilidade fazer um passeio para ainda outros, está correndo o risco de desaparecer. As tentativas de interferir diretamente naquela Coordenação via Colegiado de Atenção Psicosocial são ainda incipientes. Permanecemos aqui ainda sob a égide da lógica manicomial, visto que as principais decisões no âmbito estadual, passam por pessoas ligadas ao IPQ (Instituto de Psiquiatria de Santa Catarina).
Diante de todos estes fatos, essa nossa próxima reunião me parece vital, para que tomemos uma postura distanciada dos ventos palacianos, declarando uma posição claramente contrária à maré manicomial que preside a política de saúde mental em Santa Catarina.
Para tanto, uma reunião de pessoas conscientes e preparadas para discutir o tema, com posição antimanicomial clara e disposição para a luta, parece crucial. Temo pelo desvirtuamento. Temo pela institucionalização e engessamento do Fórum. Temo pela falta de uma base que, para além dos CAPS e seus trabalhadores, pudesse participar de mini-fórum regionalizados com acúmulo de discussão e propostas factíveis.
Ainda que costumeiramente eu costume pregar a tolerância e a inclusão, é chegada a hora de separar o joio do trigo. E que nosso Fórum retome seu rumo, cheio de um idealismo vigoroso, com militantes atentos, suas espadas desembainhadas e dispostos a cortar cabeças.
Senão melhor será optar pelo bloco do eu sozinho, no melhor espírito anarquista, inverter a lógica e tentar povoar os pesadelos de nossos carcereiros, seus hospícios e eletrochoques.
Quando a idéia do Fórum surgiu, havia um pequeno grupo de pessoas, parte do núcleo da luta antimanicomial em Santa Catarina, que havia se revigorado com a ida de delegação com cerca de 40 pessoas, entre usuários, familiares e trabalhadores, ao encontro nacional do movimento, na cidade de Miguel Pereira, RJ, em outubro de 2001.
Naquele mesmo ano ocorreu um evento em Florianópolis, de abrangência estadual, que buscou discutir e encaminhar propostas para a construção de uma autêntica política de saúde mental, consonante com a reforma psiquiátrica que então se instalava no país. Estávamos todos na época ainda saboreando a entrada em vigor da lei 10.216, depois de longos anos de debates no Congresso Nacional, ainda que muito desfigurada do projeto original. Coisas, como a proibição da construção de novos manicômios, que a redação final apenas sugere:
Art. 2o - Parágrafo único. São direitos da pessoa portadora de transtorno mental:
IX - ser tratada, preferencialmente, em serviços comunitários de saúde mental.
E temos vários exemplos da necessidade de que a sociedade civil organizada pressione a máquina estatal. Nesse ano de 2004 vemos mais uma onda contrária à reforma se estabelecer, com a aprovação da abertura de um hospital psiquiátrico com 50 leitos em Guaraniaçu, pelo Conselho Estadual de Saúde do Paraná, conforme documento encabeçado pelo Fórum Popular de Saúde daquele Estado, que o Deputado Rosinha do PT Paranaense endossa, dirigido ao Conselho Nacional de Saúde em agosto desse ano. Queremos isso em nossa Santa e Bela Catarina?
Hoje nos deparamos com uma situação crítica. Nosso Fórum Catarinense de Saúde Mental, inchado e institucionalizado, plataforma política para uns, substituto da inoperante coordenação de saúde mental da Secretaria Estadual de Saúde para outros, possibilidade fazer um passeio para ainda outros, está correndo o risco de desaparecer. As tentativas de interferir diretamente naquela Coordenação via Colegiado de Atenção Psicosocial são ainda incipientes. Permanecemos aqui ainda sob a égide da lógica manicomial, visto que as principais decisões no âmbito estadual, passam por pessoas ligadas ao IPQ (Instituto de Psiquiatria de Santa Catarina).
Diante de todos estes fatos, essa nossa próxima reunião me parece vital, para que tomemos uma postura distanciada dos ventos palacianos, declarando uma posição claramente contrária à maré manicomial que preside a política de saúde mental em Santa Catarina.
Para tanto, uma reunião de pessoas conscientes e preparadas para discutir o tema, com posição antimanicomial clara e disposição para a luta, parece crucial. Temo pelo desvirtuamento. Temo pela institucionalização e engessamento do Fórum. Temo pela falta de uma base que, para além dos CAPS e seus trabalhadores, pudesse participar de mini-fórum regionalizados com acúmulo de discussão e propostas factíveis.
Ainda que costumeiramente eu costume pregar a tolerância e a inclusão, é chegada a hora de separar o joio do trigo. E que nosso Fórum retome seu rumo, cheio de um idealismo vigoroso, com militantes atentos, suas espadas desembainhadas e dispostos a cortar cabeças.
Senão melhor será optar pelo bloco do eu sozinho, no melhor espírito anarquista, inverter a lógica e tentar povoar os pesadelos de nossos carcereiros, seus hospícios e eletrochoques.
segunda-feira, setembro 13, 2004
Eu sou o louco que os próprios loucos não reconhecem.
Mas que os não loucos facilmente rotulam de: chato, inconveniente, agressivo, inconstante, irresponsável, vagabundo, chupin, aproveitador, mentiroso, manipulador e egoísta.
Então o meu lugar não é aqui?
Mas destas duas dores, a que mais me entristece é perceber que muitos loucos absorveram o hábito de serem juízes da normalidade e saem por aí colocando as pessoas em caixinhas mágicas de diagnósticos. É como aquele conceito de Paulo Freire, de hospedar o opressor, que diz que o oprimido, depois de tanto ver os métodos e as estratégias do opressor, age como o próprio opressor.
E ainda tantos insistem em me perguntar se sou psiquiatra ou psicólogo?
Não quero este poder, meus amigos loucos. Eu dele nada mais tenho para aprender ou ensinar. Guardem essa pergunta para outra pessoa.
Eu estarei olhando postes, pássaros e sentindo o vento.
Eu sou um a garça louca e bêbada, beijando a tempestade, como quem volta de meca disfarçada de: rinoceronte, ornitorrinco ou orangotango.
Ainda me olhas?
Ainda queres perguntar?
Sou igual e diferente. Sou único.
O que quero?
Um lugar pra falar e que me ouçam com o coração.
Tudo isso e mais dois ovos fritos por cima.
E tenho dito.
Nilo Neto
Mas que os não loucos facilmente rotulam de: chato, inconveniente, agressivo, inconstante, irresponsável, vagabundo, chupin, aproveitador, mentiroso, manipulador e egoísta.
Então o meu lugar não é aqui?
Mas destas duas dores, a que mais me entristece é perceber que muitos loucos absorveram o hábito de serem juízes da normalidade e saem por aí colocando as pessoas em caixinhas mágicas de diagnósticos. É como aquele conceito de Paulo Freire, de hospedar o opressor, que diz que o oprimido, depois de tanto ver os métodos e as estratégias do opressor, age como o próprio opressor.
E ainda tantos insistem em me perguntar se sou psiquiatra ou psicólogo?
Não quero este poder, meus amigos loucos. Eu dele nada mais tenho para aprender ou ensinar. Guardem essa pergunta para outra pessoa.
Eu estarei olhando postes, pássaros e sentindo o vento.
Eu sou um a garça louca e bêbada, beijando a tempestade, como quem volta de meca disfarçada de: rinoceronte, ornitorrinco ou orangotango.
Ainda me olhas?
Ainda queres perguntar?
Sou igual e diferente. Sou único.
O que quero?
Um lugar pra falar e que me ouçam com o coração.
Tudo isso e mais dois ovos fritos por cima.
E tenho dito.
Nilo Neto
terça-feira, julho 13, 2004
quarta-feira, julho 07, 2004
Desassossegados
O que me espanta é não vermos que por trás de tudo isso está a lógica
de mercado. O velho e bom capitalismo, disfarçado de neoliberalismo,
transformando-nos constantemente em peças de engrenagem, para que
sejamos consumidos enquanto consumimos (no melhor estilo MATRIX).
Lembra que no filme tem uma pílula milagrosa? Por que será que era
uma pílula e não uma respiração especial,tipo yoga ou taichi, ou
outra forma de gerar consciência? Será que não se trata de uma
propaganda subliminar da maravilhosa indústria farmacêutica?
Tem também aquele livro, o Admirável Mundo Novo, do Huxley, que nos
anos sessenta já previa a invenção da pílula da felicidade que
chamava de soma. Seria o prozac?
Nossa, devo estar com delírios persecutórios. Deixa eu ir correndo
tomar meu haldol, ou carbolítio, ou topamax, ou zyprexa, ou
habilify...
Falando nisso, que tal imaginar uma medicina sem lucro?
Médicos trabalhando pela vida humana, sem ter grandes contas
bancárias?
Que tal imaginar políticos trabalhando voluntariamente, tendo outra
profissão que os sustente?
E os padres que recebem dinheiro para serem intermediários de deus, e
a igreja, empresa mega multi milionária, especializada em vender
futuro, sem nenhuma garantia para quem compra?
A lista não tem fim e o monstro vive a nos devorar.
"Olhe, mas não toque; toque, mas não prove; prove, mas não coma; coma
mas não saboreie".
Abraço a todos
Nilo Neto - revolucionário de plantão
O que me espanta é não vermos que por trás de tudo isso está a lógica
de mercado. O velho e bom capitalismo, disfarçado de neoliberalismo,
transformando-nos constantemente em peças de engrenagem, para que
sejamos consumidos enquanto consumimos (no melhor estilo MATRIX).
Lembra que no filme tem uma pílula milagrosa? Por que será que era
uma pílula e não uma respiração especial,tipo yoga ou taichi, ou
outra forma de gerar consciência? Será que não se trata de uma
propaganda subliminar da maravilhosa indústria farmacêutica?
Tem também aquele livro, o Admirável Mundo Novo, do Huxley, que nos
anos sessenta já previa a invenção da pílula da felicidade que
chamava de soma. Seria o prozac?
Nossa, devo estar com delírios persecutórios. Deixa eu ir correndo
tomar meu haldol, ou carbolítio, ou topamax, ou zyprexa, ou
habilify...
Falando nisso, que tal imaginar uma medicina sem lucro?
Médicos trabalhando pela vida humana, sem ter grandes contas
bancárias?
Que tal imaginar políticos trabalhando voluntariamente, tendo outra
profissão que os sustente?
E os padres que recebem dinheiro para serem intermediários de deus, e
a igreja, empresa mega multi milionária, especializada em vender
futuro, sem nenhuma garantia para quem compra?
A lista não tem fim e o monstro vive a nos devorar.
"Olhe, mas não toque; toque, mas não prove; prove, mas não coma; coma
mas não saboreie".
Abraço a todos
Nilo Neto - revolucionário de plantão
terça-feira, julho 06, 2004
Projeto Aluado
Resgatando a memória do movimento da luta antimanicomial do Brasil
Os amores na mente as flores no chão
A certeza na frente, a História na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição
Geraldo Vandré
Objetivo
Reunir, preservar e compartilhar com todos os interessados, os documentos históricos que fizeram parte da trajetória do MLA.
Justificativa
Existem espalhados pelas casas dos militantes, em alguns caps e repartições públicas, milhares de fotos, desenhos, cartazes, panfletos, filmes, jornais que fizeram parte de momentos importantes da construção da reforma psiquiátrica em nosso país.
Este material está disperso e inacessível, correndo risco de se perder e deixar de ser aproveitado.
Notas:
• Criar uma ong ou fundação, para ser a curadora deste material.
• Espaço físico e equipamento para colocar à disposição dos pesquisadores e público em geral, o acervo disponível.
• Divulgação do Projeto para que haja doações.
• Certeza de continuidade, para que as pessoas confiem que o material doado não vá se perder nem deteriorar.
• Organização de exposições e visitas de escolares.
• Fazer contato com projetos assemelhados de outros países, para troca de experiência.
• Buscar informações com o pessoal da biblioteconomia.
• Garantir a participação dos usuários e familiares na organização, sendo que deverão ser remunerados pelo trabalho.
Nilo Marques de Medeiros Neto
Representante do Movimento Nacional da Luta Antimanicomial junto à Comissão Intersetorial de Saúde Mental do Conselho Nacional de Saúde.
Resgatando a memória do movimento da luta antimanicomial do Brasil
Os amores na mente as flores no chão
A certeza na frente, a História na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição
Geraldo Vandré
Objetivo
Reunir, preservar e compartilhar com todos os interessados, os documentos históricos que fizeram parte da trajetória do MLA.
Justificativa
Existem espalhados pelas casas dos militantes, em alguns caps e repartições públicas, milhares de fotos, desenhos, cartazes, panfletos, filmes, jornais que fizeram parte de momentos importantes da construção da reforma psiquiátrica em nosso país.
Este material está disperso e inacessível, correndo risco de se perder e deixar de ser aproveitado.
Notas:
• Criar uma ong ou fundação, para ser a curadora deste material.
• Espaço físico e equipamento para colocar à disposição dos pesquisadores e público em geral, o acervo disponível.
• Divulgação do Projeto para que haja doações.
• Certeza de continuidade, para que as pessoas confiem que o material doado não vá se perder nem deteriorar.
• Organização de exposições e visitas de escolares.
• Fazer contato com projetos assemelhados de outros países, para troca de experiência.
• Buscar informações com o pessoal da biblioteconomia.
• Garantir a participação dos usuários e familiares na organização, sendo que deverão ser remunerados pelo trabalho.
Nilo Marques de Medeiros Neto
Representante do Movimento Nacional da Luta Antimanicomial junto à Comissão Intersetorial de Saúde Mental do Conselho Nacional de Saúde.
sexta-feira, julho 02, 2004
CAPSTELO, CAPSTRANHO E CAPISTRANO
Muitos foram os encontros e desencontros desse primeiro congresso dos caps.
Saber que o pioneiro trabalho de Santos anda mal das pernas, doeu. Saber que existem mais caps privados e feitos dentro dos hospícios do que a gente imaginava, também.
Lindo foi ver tanta gente lutando, desejando e realizando a tal reforma psiquiátrica. Eu me senti mesmo muito amado, na minha condição flutuante de louco. Fiquei feliz também pelos meus companheiros e companheiras usuárias Brasil afora, que recebem a atenção diária desses valorosos guerreiros, trabalhadores da atenção psicosocial.
Participei de uma oficina sobre cooperativa e geração de renda.
Daí veio àquela coisa toda sobre como dividi os ganhos, como conseguir convênios, quem pode capacitar para o trabalho e tal.
Então perguntei aos trabalhadores de saúde mental presentes, se nas oficinas de geração de renda se discutia a ideologia por trás do modo de produção capitalista, como fator preponderante do sofrimento psíquico trabalhadores e eles me olharam como se eu fosse maluco...
Então preciso fazer umas reflexões aqui.
MARX E MATRIX
Numa grande reunião para discutir a implementação planetária do conceito de “você-pode-ser-um-vencedor”, Og Mandino, Dale Carnegie, Joseph Murphy, Napoleon Hill e Norman Vicent Peale e Lair Ribeiro concluíram que a única verdadeira saída para os portadores de transtorno mental era a de oferecer-lhes sub-empregos em fábricas, comércio, dando-lhes um sub-salário que não os matasse de fome, mas que garantisse à imagem dos donos do poder, um toque a mais de brilho e autoestima. Disseram os doutos senhores:
- Vamos dar esmola disfarçada aos malucos, para que não digam que somos desumanos. Assim eles também se ocupam de suas tarefas, como abelhas operárias e não ficam por aí fazendo estripulias. Além disso, deixam mais tempo para que seus familiares também sejam eficientes abelhas e possam no final do mês comprar medicamentos caros.
- Melhor ainda - disse Murphy - vamos juntar os governos e a indústria farmacêutica, aumentando o preço dos impostos e comprando remédios de alto custo, para que o governo faça essa compra.e as famílias achem que estão pegando remédio “de graça” nos postos de saúde. Enquanto isso vamos lucrando cada vez mais e deixando os ricos cada vez mais ricos e o hemisfério norte do planeta cada vez mais paranóico e milionário.
Então algum gênio da espécie que nem lembro bem quem, pensou:
- Mas qual seria a relação entre trabalho e loucura? Será que existe um sofrimento psíquico implícito nessa forma de organização capitalista que temos, por exemplo, dos trabalhadores das cidades e campos? E mais, se eles enlouquecem devido a esse conjunto poderoso de: salário, transporte público, saneamento básico, agrotóxicos, quem somos nós para ousar afastá-los do mercado de trabalho, tirando-lhes a chance incrível de ser operário-padrão. VAMOS SEM DEMORA FAZER A INCLUSÃO SOCIAL.
A PROPOSTA DO MILÊNIO
Tudo isso é porque lá naquela tal oficina do congresso dos caps, uma pessoa sugeriu que a indústria farmacêutica estaria interessada em financiar uma cooperativa de usuários de serviço de saúde mental.
Ora, fazendo isso, fecha-se o ciclo.
As pessoas enlouquecem por são coisificadas nas suas relação de trabalho. São levadas aos hospitais psiquiátricos, onde são tratadas com remédios de alto e baixo custo, fabricados por multinacionais e empresas brasileiras da indústria farmacêutica.
Quando melhoram um pouco são recolocadas no trabalho, via oficinas de geração de renda. Estas são muito semelhantes àquelas que os fizeram adoecer, com a vantagem de serem financiadas pela indústria que fabrica os remédios.
Ainda por cima, intermediada por uma falsa ciência chamada psiquiatria tradicional, que endossa tudo isso e legitima essa construção perante: a sociedade, as famílias e os próprios loucos, que acham muito bom poder enlouquecer novamente nas oficinas do hospício. Tudo isso não é maravilhoso???
Nossa verdadeira luta será sempre a de derrubar esse muro mental que separa: loucos e normais, negros e brancos, homens e mulheres, gays e heteros...
Nesse sentido, uma organização de trabalho que seja solidária, democrática, cooperativa, amorosa, ética, parece a verdadeira resposta para que nós, portadores de transtornos mentais, os ditos loucos, possamos começar a espalhar nossa doce loucura mundo afora.
Como dizia esse outro maluco do bem, Francisco de Assis: a loucura é o sol que não deixa a razão apodrecer. Vamos dar mais esse exemplo aos chamados normais, criando formas de trabalho que possam ser saudáveis e prazerosas. Vamos reinventar um mundo tolerante e tesudo. E que se inclua quem quiser, ou puder.
Nilo Marques de Medeiros Neto
Representante do Movimento da Luta Antimanicomial junto à Comissão Intersetorial de Saúde Mental do Conselho Nacional de Saúde – Brasília/DF
Muitos foram os encontros e desencontros desse primeiro congresso dos caps.
Saber que o pioneiro trabalho de Santos anda mal das pernas, doeu. Saber que existem mais caps privados e feitos dentro dos hospícios do que a gente imaginava, também.
Lindo foi ver tanta gente lutando, desejando e realizando a tal reforma psiquiátrica. Eu me senti mesmo muito amado, na minha condição flutuante de louco. Fiquei feliz também pelos meus companheiros e companheiras usuárias Brasil afora, que recebem a atenção diária desses valorosos guerreiros, trabalhadores da atenção psicosocial.
Participei de uma oficina sobre cooperativa e geração de renda.
Daí veio àquela coisa toda sobre como dividi os ganhos, como conseguir convênios, quem pode capacitar para o trabalho e tal.
Então perguntei aos trabalhadores de saúde mental presentes, se nas oficinas de geração de renda se discutia a ideologia por trás do modo de produção capitalista, como fator preponderante do sofrimento psíquico trabalhadores e eles me olharam como se eu fosse maluco...
Então preciso fazer umas reflexões aqui.
MARX E MATRIX
Numa grande reunião para discutir a implementação planetária do conceito de “você-pode-ser-um-vencedor”, Og Mandino, Dale Carnegie, Joseph Murphy, Napoleon Hill e Norman Vicent Peale e Lair Ribeiro concluíram que a única verdadeira saída para os portadores de transtorno mental era a de oferecer-lhes sub-empregos em fábricas, comércio, dando-lhes um sub-salário que não os matasse de fome, mas que garantisse à imagem dos donos do poder, um toque a mais de brilho e autoestima. Disseram os doutos senhores:
- Vamos dar esmola disfarçada aos malucos, para que não digam que somos desumanos. Assim eles também se ocupam de suas tarefas, como abelhas operárias e não ficam por aí fazendo estripulias. Além disso, deixam mais tempo para que seus familiares também sejam eficientes abelhas e possam no final do mês comprar medicamentos caros.
- Melhor ainda - disse Murphy - vamos juntar os governos e a indústria farmacêutica, aumentando o preço dos impostos e comprando remédios de alto custo, para que o governo faça essa compra.e as famílias achem que estão pegando remédio “de graça” nos postos de saúde. Enquanto isso vamos lucrando cada vez mais e deixando os ricos cada vez mais ricos e o hemisfério norte do planeta cada vez mais paranóico e milionário.
Então algum gênio da espécie que nem lembro bem quem, pensou:
- Mas qual seria a relação entre trabalho e loucura? Será que existe um sofrimento psíquico implícito nessa forma de organização capitalista que temos, por exemplo, dos trabalhadores das cidades e campos? E mais, se eles enlouquecem devido a esse conjunto poderoso de: salário, transporte público, saneamento básico, agrotóxicos, quem somos nós para ousar afastá-los do mercado de trabalho, tirando-lhes a chance incrível de ser operário-padrão. VAMOS SEM DEMORA FAZER A INCLUSÃO SOCIAL.
A PROPOSTA DO MILÊNIO
Tudo isso é porque lá naquela tal oficina do congresso dos caps, uma pessoa sugeriu que a indústria farmacêutica estaria interessada em financiar uma cooperativa de usuários de serviço de saúde mental.
Ora, fazendo isso, fecha-se o ciclo.
As pessoas enlouquecem por são coisificadas nas suas relação de trabalho. São levadas aos hospitais psiquiátricos, onde são tratadas com remédios de alto e baixo custo, fabricados por multinacionais e empresas brasileiras da indústria farmacêutica.
Quando melhoram um pouco são recolocadas no trabalho, via oficinas de geração de renda. Estas são muito semelhantes àquelas que os fizeram adoecer, com a vantagem de serem financiadas pela indústria que fabrica os remédios.
Ainda por cima, intermediada por uma falsa ciência chamada psiquiatria tradicional, que endossa tudo isso e legitima essa construção perante: a sociedade, as famílias e os próprios loucos, que acham muito bom poder enlouquecer novamente nas oficinas do hospício. Tudo isso não é maravilhoso???
Nossa verdadeira luta será sempre a de derrubar esse muro mental que separa: loucos e normais, negros e brancos, homens e mulheres, gays e heteros...
Nesse sentido, uma organização de trabalho que seja solidária, democrática, cooperativa, amorosa, ética, parece a verdadeira resposta para que nós, portadores de transtornos mentais, os ditos loucos, possamos começar a espalhar nossa doce loucura mundo afora.
Como dizia esse outro maluco do bem, Francisco de Assis: a loucura é o sol que não deixa a razão apodrecer. Vamos dar mais esse exemplo aos chamados normais, criando formas de trabalho que possam ser saudáveis e prazerosas. Vamos reinventar um mundo tolerante e tesudo. E que se inclua quem quiser, ou puder.
Nilo Marques de Medeiros Neto
Representante do Movimento da Luta Antimanicomial junto à Comissão Intersetorial de Saúde Mental do Conselho Nacional de Saúde – Brasília/DF
terça-feira, junho 22, 2004
Considerando que verdadeira mudança é cultural.
Considerando que a loucura é muito mais que doença mental.
Convocamos todos os companheiros e companheiras para a primeira caminhada do orgulho louco.
Segundo sábadfo de novembro, 14 horas.
Saindo do centro de Floripa em carreata até as proximidades da Colônia Santana (São José – SC).
Ocupação do jardim do manicômio, com manifestações artísticas e microfone aberto a todos.
Dia de exercer as estranhezas legítimas.
Pelo SUS e pela Rede Substitutiva de Serviços de Saúde Mental.
Contra qualquer tipo de manicômio (inclusive o mental).
Dia de luta contra qualquer tipo de preconceito.
Nilo Neto
Considerando que a loucura é muito mais que doença mental.
Convocamos todos os companheiros e companheiras para a primeira caminhada do orgulho louco.
Segundo sábadfo de novembro, 14 horas.
Saindo do centro de Floripa em carreata até as proximidades da Colônia Santana (São José – SC).
Ocupação do jardim do manicômio, com manifestações artísticas e microfone aberto a todos.
Dia de exercer as estranhezas legítimas.
Pelo SUS e pela Rede Substitutiva de Serviços de Saúde Mental.
Contra qualquer tipo de manicômio (inclusive o mental).
Dia de luta contra qualquer tipo de preconceito.
Nilo Neto
terça-feira, junho 01, 2004
Manifesto
Meu senso de liberdade é tão desesperado, quanto precoce.
Recordando com meus pais, reagia com vigor, já na mais tenra idade, a qualquer tentativa de contenção. Há inclusive episódio na memória da família, quando eu ainda recém aprendia a andar. Para poder dar conta das tarefas cotidianas, minha mãe colocou-me num quarto, com cercadinho de madeira, que me impedia de caminhar livremente pela casa, causando pequenos transtornos. Dizem eles, não me conformei enquanto não a tiraram, chacoalhando a tal cerca, até que me livrassem.
Mais tarde, o amor profundo pelo vento. Força da natureza que até hoje me faz parar e, sem qualquer tipo de pensamento, aproveitar as sensações por ele provocadas.
Então companheiros, compreendam a minha indignação por ver portadores de transtornos presos, sem julgamento, pelo crime de ter uma doença mental, nos muitos hospícios desse Brasil. E ainda são mais de 60.000 em pleno ano de 2002. Isso, para lembrar os muitos companheiros torturados e mortos nestes mesmos locais infernais, denunciados pelo jornalista Milton Mendes, no livro: A Instituição Sinistra: Mortes Violentas em Hospitais Psiquiátricos no Brasil, organizado pelo Conselho Federal de Psicologia e o famoso "Canto dos Malditos", do não menos brilhante Austregésilo Carrano.
Por favor, respeitem minha indignação.
Falo em nome dos que foram excluídos, explorados e roubados em todos os sentidos, por estes senhores, barões da indústria da loucura. Falo em nome dos que foram destituídos dos mais básicos direitos humanos: para dar lucro aos donos dos hospitais psiquiátricos, da indústria farmacêutica e aos governantes que concordaram com todas estas barbaridades. (e ainda concordam)
A morte da cidadania, da liberdade, é mais terrível que a morte do corpo. Chega dos mortos-vivos gerados no interior dos manicômios, pelo total abandono e falta de tratamento médico digno.
Chega do desperdício de talentos e desejos, pelo rótulo preconceituoso e inútil, que recebemos em alguns consultórios de profissionais de saúde e hospícios. Nós podemos, sim, encontrar nosso espaço dentro da vida. Somos capazes e queremos ser ouvidos.
Não queremos caridade, queremos oportunidade.
Somos os mais sensíveis às doenças sociais e da família. Não aceitamos mais pagar o preço dos erros coletivos.
Respeitem nossas indicações do que já não funciona. Aproveitem nossa luz. Sempre existimos e não deixaremos impune, a vontade dos muitos infelizes poderosos, de nos fazerem calar.
Até quando teremos que anestesiar nossas capacidades, para suportar viver nessa estrutura social incapaz de satisfazer aos desejos mais simples da maioria, como: casa, comida e habilidade para sonhar?
Minha ira é fundada e compatível.
Não me acusem de louco, de bipolar.
Não preciso da bondade e da piedade de vocês.
Preciso, sim, do apoio incondicional, da solidariedade e da vontade de lutar contra toda essa vergonha, para acabar de vez com essa verdadeira miséria humana.
Pelo fim dos manicômios, hospitais e clínicas psiquiátricas.
Pelo fim dos muros, preconceitos e tratamentos prisionais para portadores de transtorno mental que não cometeram crime algum.
Pela rede substitutiva de atenção psicossocial, pela autonomia, liberdade e cidadania dos usuários de serviços de saúde mental do SUS.
Pelo fim do eletro-choque.
Pelo fim do comércio e lucro sobre a dor humana, a doença e o sofrimento de qualquer tipo.
Exija do seu Prefeito, Vereador, que se construa uma rede de atenção psicosocial no seu município.
Divulgue e faça valer a lei federal 10.216/01, a lei da reforma psiquiátrica no Brasil. Ela é a garantia de uma vida melhor para todos nós.
Nilo Marques de Medeiros Neto
Usuário de Seviço de Saúde Mental do SUS (Sistema Único de Saúde)
Meu senso de liberdade é tão desesperado, quanto precoce.
Recordando com meus pais, reagia com vigor, já na mais tenra idade, a qualquer tentativa de contenção. Há inclusive episódio na memória da família, quando eu ainda recém aprendia a andar. Para poder dar conta das tarefas cotidianas, minha mãe colocou-me num quarto, com cercadinho de madeira, que me impedia de caminhar livremente pela casa, causando pequenos transtornos. Dizem eles, não me conformei enquanto não a tiraram, chacoalhando a tal cerca, até que me livrassem.
Mais tarde, o amor profundo pelo vento. Força da natureza que até hoje me faz parar e, sem qualquer tipo de pensamento, aproveitar as sensações por ele provocadas.
Então companheiros, compreendam a minha indignação por ver portadores de transtornos presos, sem julgamento, pelo crime de ter uma doença mental, nos muitos hospícios desse Brasil. E ainda são mais de 60.000 em pleno ano de 2002. Isso, para lembrar os muitos companheiros torturados e mortos nestes mesmos locais infernais, denunciados pelo jornalista Milton Mendes, no livro: A Instituição Sinistra: Mortes Violentas em Hospitais Psiquiátricos no Brasil, organizado pelo Conselho Federal de Psicologia e o famoso "Canto dos Malditos", do não menos brilhante Austregésilo Carrano.
Por favor, respeitem minha indignação.
Falo em nome dos que foram excluídos, explorados e roubados em todos os sentidos, por estes senhores, barões da indústria da loucura. Falo em nome dos que foram destituídos dos mais básicos direitos humanos: para dar lucro aos donos dos hospitais psiquiátricos, da indústria farmacêutica e aos governantes que concordaram com todas estas barbaridades. (e ainda concordam)
A morte da cidadania, da liberdade, é mais terrível que a morte do corpo. Chega dos mortos-vivos gerados no interior dos manicômios, pelo total abandono e falta de tratamento médico digno.
Chega do desperdício de talentos e desejos, pelo rótulo preconceituoso e inútil, que recebemos em alguns consultórios de profissionais de saúde e hospícios. Nós podemos, sim, encontrar nosso espaço dentro da vida. Somos capazes e queremos ser ouvidos.
Não queremos caridade, queremos oportunidade.
Somos os mais sensíveis às doenças sociais e da família. Não aceitamos mais pagar o preço dos erros coletivos.
Respeitem nossas indicações do que já não funciona. Aproveitem nossa luz. Sempre existimos e não deixaremos impune, a vontade dos muitos infelizes poderosos, de nos fazerem calar.
Até quando teremos que anestesiar nossas capacidades, para suportar viver nessa estrutura social incapaz de satisfazer aos desejos mais simples da maioria, como: casa, comida e habilidade para sonhar?
Minha ira é fundada e compatível.
Não me acusem de louco, de bipolar.
Não preciso da bondade e da piedade de vocês.
Preciso, sim, do apoio incondicional, da solidariedade e da vontade de lutar contra toda essa vergonha, para acabar de vez com essa verdadeira miséria humana.
Pelo fim dos manicômios, hospitais e clínicas psiquiátricas.
Pelo fim dos muros, preconceitos e tratamentos prisionais para portadores de transtorno mental que não cometeram crime algum.
Pela rede substitutiva de atenção psicossocial, pela autonomia, liberdade e cidadania dos usuários de serviços de saúde mental do SUS.
Pelo fim do eletro-choque.
Pelo fim do comércio e lucro sobre a dor humana, a doença e o sofrimento de qualquer tipo.
Exija do seu Prefeito, Vereador, que se construa uma rede de atenção psicosocial no seu município.
Divulgue e faça valer a lei federal 10.216/01, a lei da reforma psiquiátrica no Brasil. Ela é a garantia de uma vida melhor para todos nós.
Nilo Marques de Medeiros Neto
Usuário de Seviço de Saúde Mental do SUS (Sistema Único de Saúde)
quinta-feira, maio 27, 2004
quarta-feira, maio 05, 2004
Tem um jeito bem fácil de tirar a prova, se o cara é bipolar, canalha
ou os dois.
Basta fazer o tratamento direitinho, com: medicação, terapia, arte,
essas coisas multidisciplinares que vocês já me ouviram falar outras
vezes.
Pra convencer o figura, basta dizer que ele não tem nada a perder
mesmo. Que pior não fica, essas coisas. E também que essa proposta de
tratamento depende do desejo dele, que ele sempre terá sua liberdade
preservada.
Além disso, claro, tentar abandonar esta causa de tantas dores: a
culpa. Tanto do portador, quanto da família. Que tal uma anistia:
ampla, geral e irrestrita? Todo mundo pensando menos em culpa e mais
nas possibilidades dessa mudança, menos no passado, mais no presente
e no futuro (principalmente no presente). Tudo isso regado com muito
carinho e desejo de estar próximo do coração do outro, ouvi-lo sem
julgá-lo(por sinal, nosso desassossego está recheado disso tudo).
Finalmente, procurar um CAPS, que é público e gratuito.
Os endereços dos CAPS (Centro de Atenção Psicosocial) de todo Brasil,
estão neste site aqui:
www.inverso.org.br (procure em redes assistenciais)
Nilo Neto
ou os dois.
Basta fazer o tratamento direitinho, com: medicação, terapia, arte,
essas coisas multidisciplinares que vocês já me ouviram falar outras
vezes.
Pra convencer o figura, basta dizer que ele não tem nada a perder
mesmo. Que pior não fica, essas coisas. E também que essa proposta de
tratamento depende do desejo dele, que ele sempre terá sua liberdade
preservada.
Além disso, claro, tentar abandonar esta causa de tantas dores: a
culpa. Tanto do portador, quanto da família. Que tal uma anistia:
ampla, geral e irrestrita? Todo mundo pensando menos em culpa e mais
nas possibilidades dessa mudança, menos no passado, mais no presente
e no futuro (principalmente no presente). Tudo isso regado com muito
carinho e desejo de estar próximo do coração do outro, ouvi-lo sem
julgá-lo(por sinal, nosso desassossego está recheado disso tudo).
Finalmente, procurar um CAPS, que é público e gratuito.
Os endereços dos CAPS (Centro de Atenção Psicosocial) de todo Brasil,
estão neste site aqui:
www.inverso.org.br (procure em redes assistenciais)
Nilo Neto
Mensagem a uma familiar
Só pra tentar pensar nas palavras e significado delas.
Que tal recuperação, ao invés de cura?
Que tal vida equilibrada, ao invés de vida normal?
Que tal experiência subjetiva radical, ao invés de surto?
Que tal atenção psicosocial, ao invés de saúde mental?
Que tal portador de trasntorno mental, cliente, sobrevivente, usuário
de serviço de atenção psicosocial, ao invés de paciente ou doente
mental?
Que tal esperança ao invés de culpa?
Que tal informação ao invés de preconceito?
Que tal amor ao invés de medo?
Dizem que só se conhece duas maneiras de perder a identidade, o
chamado ego. Loucura e morte.
O medo de ambas é compreensível.
Mas ambas fazem parte da da vida.
É muito legal ter familiares aqui conosco.
Que tal nos contar alguma coisa sobre o teu irmão que te faça ter
orgulho dele?
A minha mãe adora assitir a Hebe e ler a revista Cláudia. Nem por
isso eu deixei de amá-la. Além disso, ela faz uma tainha recheada que
é de fechar o comércio.
Abraço
Nilo Neto
Só pra tentar pensar nas palavras e significado delas.
Que tal recuperação, ao invés de cura?
Que tal vida equilibrada, ao invés de vida normal?
Que tal experiência subjetiva radical, ao invés de surto?
Que tal atenção psicosocial, ao invés de saúde mental?
Que tal portador de trasntorno mental, cliente, sobrevivente, usuário
de serviço de atenção psicosocial, ao invés de paciente ou doente
mental?
Que tal esperança ao invés de culpa?
Que tal informação ao invés de preconceito?
Que tal amor ao invés de medo?
Dizem que só se conhece duas maneiras de perder a identidade, o
chamado ego. Loucura e morte.
O medo de ambas é compreensível.
Mas ambas fazem parte da da vida.
É muito legal ter familiares aqui conosco.
Que tal nos contar alguma coisa sobre o teu irmão que te faça ter
orgulho dele?
A minha mãe adora assitir a Hebe e ler a revista Cláudia. Nem por
isso eu deixei de amá-la. Além disso, ela faz uma tainha recheada que
é de fechar o comércio.
Abraço
Nilo Neto
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