domingo, dezembro 23, 2007

COISA DE LOUCO ...

Sem pai nem patrão
,
acreditamos no auto-governo.

Fomos sendo lentamente calados,
pelo desprezo silencioso,
dos donos do mundo.
Dos que tem medo da diferença,
ao invés de reconhecer nela,
uma oportunidade de um outro olhar,
sobre os velhos problemas.

Não sabemos bem quem somos,
nem nosso potencial,
nem nossa força.
Mas não temos a inocência das crianças.
Temos sim, a graça de quem já perdeu tudo muitas vezes,
inclusive a identidade.
Por isso já não quebramos.

Nossos pesos e medidas são outros.
Nosso tempo corre fragmentado,
sem ontem ou amanhã distantes.

Nossa família está solta pelo mundo,
a gente se reconhece no olhar.
Alguns nos chamam loucos.
Entre nós, não temos nome.
Não acreditamos mais em palavras.
Nem nessas.

Gostaríamos que nos deixassem em paz. Gostaríamos que nos deixassem em paz. Gostaríamos que parassem de complicar o que é simples. Gostaríamos de mais cachoeira e menos estradas. Mais risada e menos antena. Mais banho de mar e menos imposto. Tecnologia para os homens e os animais, principalmente os colibris.

Se para sermos reconhecidos, tivermos que perder nossa liberdade, autenticidade, preferimos permanecer incompreendidos.
Muitos dos nossos nunca souberam seu valor. E se pudessem ter optado, decerto escolheriam um sorriso satisfeito a uma conta bancária.

Nilo (esse texto é de 2003 ou 2004)

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Tem um pessoa linda: guerreira, mulher, como só uma negra, nordestina, sabe ser. Ela passou por experiências subjetivas radicais (Obrigado de novo Eduardo Vasconcellos) e não se entregou. Hoje é professora, assistente social e está levando a boa nova da reforma psiquiátricas para os quatro cantos do Piauí. Loas a essa grande força, símbolo de resistência e fé na vida. O nome da ONG que ela ajuda a tocar é NINHO. E o atalho tá aí do lado. O nome dela? Maria Edileuza da Conceição Lima.

quarta-feira, novembro 21, 2007

Sonho de um homem ridículo

Eu sou um homem ridículo. No momento dizem que estou louco. Seria um título excelente, se para eles eu não permanecesse nada mais que ridículo. Mas de agora em diante não me zango mais; todo mundo é muito gentil comigo, mesmo quando caçoa de mim, e, dir-se-ia, mais gentil ainda naquele momento. Eu riria de bom grado com eles, não tanto de mim mesmo, quanto para lhes ser agradável, se não sentisse tal tristeza ao contemplá-los. Tristeza de ver que não conhecem a verdade, esta verdade só eu conheço. Como é duro ser o único a conhecê-la! Porém, eles não compreenderão. Não, não compreenderão.

Dostoievski

quarta-feira, novembro 14, 2007

Confesso que nos anos de militância ingênua, sentia falta de pessoas com background semelhante ao meu, tanto nas lides da vida, quanto nas visões de mundo. Mas isso não me impediu de caminhar. E olhando pra trás agora, considerando a quase total falta de estrutura financeira. Considerando que a minha passagem foi pioneira em tantos sentidos. Até que realizei muito, contribuí sem medo, com a construção da famosa Reforma Psiquiátrica.

Certamente, e agora já um tanto mais calejado com a visão crua dos atores, humanos e falíveis, reconheço muito que fazer. Aceito críticas internas e externas. Aproveito para aprimorar ainda mais a pontaria de minhas flechas/pensamentos. Qual arqueiro zen, busco o ato puro.

Sei também que a voz dos usuários de serviços de saúde mental ainda é pouco ouvida. Mesmo nos Caps e Associações. Mas no amadurecimento desses espaços está certamente o futuro brilhante que carregará de vez o preconceito, o auto preconceito, o isolamento e solidão que tantos nos oprime, principalmente antimanicomiais de coração.

Nunca neguei a dor da experiência subjetiva radical. Não posso ainda prescindir dessas medicações cheias de efeitos colaterais horrorosos. Assim como das internações, ainda que em hospitais gerais, nas situações de grave risco.

Só queria lembrar que elas, as experiências, carregam também possibilidades inestimáveis de amadurecimento, solidariedade, criatividade e cooperação. Essas que são sistematicamente negadas nos chiqueiros psiquiátricos e suas salas de intervenção e tortura.

Defendê-los seria um apego ao passado, por demais obscurantista.

Beijo na hipófise.

Nilo Neto

quinta-feira, agosto 30, 2007

dois loucos no bairro

um passa os dias chutando postes
para ver se acendem
o outro as noites apagando palavras
contra um papel branco

todo bairro tem um louco
que o bairro trata bem
só falta mais um pouco
pra eu ser tratado também

Paulo Leminski

segunda-feira, julho 16, 2007

A senhora minha mãe, que participa de um grupo de auto ajuda para familiares de portadores de doença mental, com perfil burguês e afinidades manicomiais, me aparece com um texto de um psiquiatra da usp, ávido defensor do eletrochoque e um dos maiores adversários da reforma psiquiátrica conhecidos, publicado em revista semanal também reconhecidamente de direita.
Veio me mostrar, para que eu lesse e pudéssemos opinar, eu e meu pai, para que ela levasse o tal texto para discussão no grupo. A hora que eu vi o título, alguma coisa como “a normalidade existe”, logo pensei, está vendendo um serviço. E eu não sabia ainda quem era o autor. O contraponto dessa frase, famosa letra de Caetano Veloso, de perto ninguém é normal. Em seguida sugeri a minha querida progenitora que não levasse o texto, ao que ela retrucou que eu era radical.
Não vou entrar no mérito dessa discussão. Só queria deixar registrado que fiquei pensando no que oferecer a ela para levar ao grupo, ao invés do infame texto. Eu não sou um leitor contumaz dos teóricos antimanicomiais brasileiros. Que material seria interessante para aquele grupo de senhoras? O que temos produzido e para que fins? Textos demasiadamente acadêmicos seriam cansativos e herméticos.
Desde que me dei conta que esse blog antimanicomial está citado na página da saúde mental do ministério da saúde (http://portal.saude.gov.br/portal/saude/cidadao/visualizar_texto.cfm?idtxt=24363&janela=2), assim como do site inverso, referência no assunto, na internet (http://www.inverso.org.br/index.php/content/view/10.html), atentei para o fato de que essa produção vai adquirindo algum valor aos que buscam informações nesse vasto mundo virtual.
Mas permanece a dúvida. Quem souber o que indicar, por favor ajude.

terça-feira, junho 26, 2007

Vermes

Não há palavra, ato ou vontade
Que comova o verme
O verme não se engaja em nada
Está sempre em sua sanha desenfreada
Pelo podre, morto, perverso
Mal vê, ao seu lado
Outros vermes
Igualmente solitários
Numa multidão de vermes
Devorando tudo à qualquer preço
Até que não sobre nada
Além de ossos
E fim
Sem saudades
De sua jornada

Charles Bukowski

terça-feira, abril 24, 2007


Eu achava que não fosse postar mais nada nesse blog. Deixá-lo assim, somente com a fase mais ingênua da militância. Mas não seria justo comigo e com os leitores, não participar das mudanças que ocorreram na minha vida nos últimos dois anos. Então segue a barca, rio acima, lutando contra o fluxo e o que o rio traz. Abraço


Nilo Neto


(texto preparado a pedido, para fazer parte das discussões do Fórum Catarinense de Saúde Mental, ocorrido em Brusque, SC, abril de 2007)

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.

Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Queridos amigos e amigas, usuários e familiares da saúde mental em Santa Catarina

Eu sinceramente acho que não tem jeito mesmo. Que a gente nasce pra sofrer, num mundo desgraçado e que o melhor é aprender a sofrer calado, que é pra não chatear muito quem tiver em volta. É claro que tem gente que consegue furar essa bolha que a doença mental cria em volta da gente e voltar pra vida em sociedade. Mas não são muitos e eu certamente não sou um deles. Olha que eu andei por aí, tentei vários tipos de tratamentos e abordagens. E nada. Estou no buraco negro, sem perspectiva de sair.
Teve uma época que eu participei dos movimentos sociais. E cheguei mesmo a acreditar que havia uma saída coletiva pros problemas individuais. Que a gente se reunir com outras pessoas que tivessem passado por sofrimentos semelhantes aos nossos poderia mostrar novas formas de ver a vida. E que isso fortaleceria a gente, daria coragem pra se reerguer. Essa Associação de Usuários e Familiares é mais uma tentativa dessas.
Mas eu caí mais uma vez e não vi nenhuma ajuda útil desde então. O problema com o movimento social da saúde mental é que ele é organizado e dirigido pelos profissionais da saúde. Pessoas que, mesmo quando bem intencionadas, já estão ganhando o seu dinheiro graças ao surto alheio. E até falam em geração de renda pros usuários. Mas é tudo muito frágil, insipiente. A renda gerada nessas oficinas é bem pouca. E não atinge as necessidades de quem queira fazer um vôo um pouquinho mais alto, se dá para os que querem pouco. Não tem lugar pra usuário classe média no movimento social ou no caps. Esses problemas, a Associação de Usuários e Familiares em âmbito estadual poderia ajudar a resolver. Trocando experiências entre as associações municipais. Nesse momento, a partir da minha experiência em duas gestões junto a associação amealoucamente, vejo alguns desafios para as Associações:

· Descobrir de onde se pode conseguir fontes de financiamento, para: as oficinas, participação dos usuários nos eventos, da manutenção de representantes no controle social e que ela possa ter sede própria, desvinculada do caps.
· Descobrir como se consegue motivar os usuários para que eles participem das ações da associação, trazendo sua experiência e sugestões e participando animadamente das atividades
· Ampliar o campo de atuação para que a associação trabalhe com a saúde mental de todo o município e não só dos usuários do caps.
· Criar laços com outros movimentos sociais, para fortalecer a solidariedade e a troca de experiências entre a saúde mental e os outros.

Todo mundo ganha dinheiro com a loucura, menos os loucos. Então a verdade é que somos excluídos, jogados fora, não tem lugar no mundo pra nós, porque não produzimos nem consumimos. E nesse mundo a gente vale pelo que a gente tem de dinheiro (no fundo eu custo a acreditar nisso, mas a realidade me atropelou, como eu disse). Eu estou ainda tentando mudar um pouco isso, essa minha sensação de não ter valor, oferecendo minhas idéias e experiências para compartilhar nos eventos e na produção intelectual em torno do fenômeno loucura. Mas eu acho que nessas alturas do campeonato eu deva ser remunerado pra isso. Não tenho encontrado muito espaço. Quem sabe no futuro as pessoas, leia-se trabalhadores da saúde mental, reconheçam meu valor, meu trabalho e minhas necessidades. Existe uma exceção, que e é o Jeferson. Eu não estou participando desse evento porque a organização não viu interesse em me remunerar. Mas graças a um pedido do Jeferson para que escrevesse umas palavras, devidamente remunerado, aqui vai minha participação.
Desejo que os que fizerem parte dessa Associação consigam realizar algumas mudanças. O trabalho é de formiga mesmo. Talvez nem seja pra gente ver. Mas temos que reconhecer que já foi mais difícil. Já teve fogueira, eletro-choque, internação pro resto da vida. Aliás, essas coisas ainda acontecem em alguns lugares.
Neste momento um passo interessante seria a criação de algum canal de comunicação entre as associações dispostas a participar da Associação estadual. Isso poderia se fazer via internet ou pelo correio comum.
Também seria interessante discutir que formato essa associação deve ter, se é o momento de oficializar, registrar em cartório, com toda documentação e custos que isso exige, ou de ir realizando alguns encontros e atividades pra amadurecer a participação dos associados. Pra que eles percebam quais são as principais reivindicações e como se pode resolvê-las.
Quem sabe é o momento de perceber a importância dos espaços do controle social, principalmente do Conselho Estadual de Saúde e do Colegiado de Saúde Mental. A grande pergunta seria: como está andando a saúde mental no Estado de Santa Catarina hoje? Uma dica pra quem quiser se envolver com o controle social do SUS, é ter a capacidade de entender como funciona o financiamento. Quem souber onde está o dinheiro, saberá onde está a política estadual de saúde mental. Infelizmente o assunto é espinhoso e entendê-lo é um grande desafio. Mas quem sabe alguém, algum familiar ou usuário que tenha conhecimentos em contabilidade, possa se oferecer pra aprender e explicar para os outros.
Eu tenho um sonho de transformar a Colônia Santana num mega caps, com muita cultura e geração de renda. Vi fazerem isso na cidade de Campinas. É possível. Acreditem. Esse é um trabalho da Associação Estadual, já que o ipq faz parte do governo estadual. Tem uma outra coisa que me incomoda, é o fato de São José ser o único município grande de Santa Catarina, que não possui CAPS. Isso é uma vergonha. Isso é subserviência política aos manicomiais donos de hospitais da área.
Também se poderia começar a pensar num banco de dados com as informações primordiais dos Associados em todo o estado.
Quem sabe um boletim informativo, que poderia ser distribuído nos Caps e principais postos de saúde de cada município associado, trazendo textos e desenhos dos usuários e familiares. A iniciativa privada poderia participar, através de pequenos anúncios, para financiar a elaboração e distribuição do boletim.
A Associação Estadual poderia fazer um concurso cultural para divulgação da lei 10.216.
Enfim, são algumas sugestões que trago pra vocês.
Então eu fico aqui de longe desejando boa sorte e sonhando que a Associação possa me contratar pra dar alguns cursos e consultoria. Seria bom pra todos, porque forçaria uma organização mais madura da Associação e eu me sentiria reconhecido no meu trabalho.
Muito obrigado

sexta-feira, novembro 19, 2004

Caminhando e cantando... (Orgulho Louco)

Nilo Neto
Caminhada Crônica

Talvez tenha sido mera coincidência, mas o fato é que essa nossa ilha capital se chamava Vila de Nossa Senhora do Desterro, em seu longo período pré-republicano de existência. Esse nome refere-se à passagem bíblica chamada “Fuga do Egito”, onde nossa senhora escapa da ira do rei Herodes, carregando nos braços o menino Jesus, acompanhada de José.
Desde o começo, nossa cidade teve a vocação de abrigar todo tipo de: degredado, fugido, condenado, herege, bruxa e pirata. Mais modernamente: hippies, esotéricos, alternativos, anarquistas, e toda uma tribo de outsiders vêm aportando nesse nosso pedacinho de terra perdido no mar.
E se esses desterrados, saudosos de suas terras e sonhos, conseguiram criar por aqui um clima de magia, por outro lado, enterraram fundo na alma de nossa gente uma necessidade de resistir à todo tipo de opressão.
Para citar as mais recentes, temos o genocídio praticado na ilha de Anhatomirim, no final da década de 1890, que levou deste mundo os rebelados contra a nova oligarquia republicana, que empurrava garganta abaixo seu domínio, como naquele outro famoso episódio, conhecido por Revolta de Canudos, e que aqui deixou marcas de dor nas famílias que viram seus filhos sendo cruelmente assassinados pelo famigerado Coronel Moreira César.
Este senhor era o preposto do então presidente Floriano Peixoto. Para conter sua trilha de matança das lideranças políticas locais, fieis a monarquia, acabou sendo homenageado com o nome da cidade, Florianópolis.
Menos de um século depois, o episódio da Novembrada, marcou o fim da Ditadura Militar no Brasil, graças a uma fortíssima manifestação popular capaz de dar tapas na cara de Generais e Ministros, em plena praça XV. Naquela ocasião, o presidente Figueiredo descerrou placa homenageando o tal Floriano. Esta foi então pisoteada, queimada, mijada e jogada nas portas do palácio do governo.
Este ano tivemos outro embate histórico que culminou com a vitória do movimento do passe livre, que conseguiu mais uma vez demonstrar a força do povo unido, contras as barbaridades da elite burra. Mesmo que persista usurpando os direitos básicos de educação, saúde e lazer dos cidadãos. Todos seriamente comprometidos pela corja de ladrões que exploram o suor e sangue da população, através de um transporte publico caro e de péssima qualidade.
Neste contexto, no ultimo dia 13 de novembro aconteceu, aqui em Floripa, a primeira caminhada do orgulho louco. Sob os auspícios da bem sucedida parada do orgulho gay, associada ao ideário de ocupação dos latifúndios improdutivos do MST, éramos cerca de 60 pessoas. Na primeira parte do acontecimento, que começou cerca de 11 da manhã, manifestações culturais, políticas e sociais, tomaram conta do largo da alfândega. Os passantes puderam observar, ainda um pouco surpresos, de que forma pretendemos construir a identidade do novo louco. Outrora excluído e abandonado, hoje ele vem pra rua gritar que precisamos viver num mundo mais: solidário, cooperativo, inclusivo e tolerante com as diferenças.
Na segunda parte do dia, por volta das 14 horas embarcamos em ônibus cedido pelos companheiros do SINTUFSC (Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Federal de Santa Catarina), parceiros desde a primeira hora e rumamos a antiga Colônia Santana no vizinho município de São Jose. Hoje chamado de Instituto de Psiquiatria, maior hospício público de Santa Catarina.
Lá esticamos nossas faixas e fizemos um minuto de silêncio, em homenagem aos companheiros que permanecem presos na instituição, depois palavra aberta aos presentes que disseram palavras de incentivo aos internados, como: paz, harmonia, saúde e outras no sentido da transformação do hospital em espaço cultural, de geração de renda e vida nova aos “chamados” doentes mentais.
Questão de justiça lembrar o apoio imprescindível do apoio da presidência da Assembléia Legislativa, fornecendo material de divulgação, do coletivo da Radio de Tróia, na divulgação e participação efetiva em todos os momentos do evento, de integrantes do Maracatu Arrasta Ilha, do Fórum Catarinense de Saúde Mental, dos músicos do grupo Parasol, e de toda a galera que esteve de corpo e alma nessa empreitada diária de mudar o mundo.
Ano que vem, no segundo sábado de novembro, estaremos de volta, mais atilados e certeiros, quais arqueiros zen, com nossas flechas-pensamentos, prontos a derrubar os muros do preconceito, seja ele de que tipo for.
Nós, loucos organizados, queremos a felicidade que nos cabe. Falando nisso, o que você faz com sua loucura? Venha enlouque-ser com a gente. Mudar o mundo é mudar a si mesmo. Quanto mais simples, maior o espanto.

sexta-feira, outubro 08, 2004

Companheiras e Companheiros


Quando a idéia do Fórum surgiu, havia um pequeno grupo de pessoas, parte do núcleo da luta antimanicomial em Santa Catarina, que havia se revigorado com a ida de delegação com cerca de 40 pessoas, entre usuários, familiares e trabalhadores, ao encontro nacional do movimento, na cidade de Miguel Pereira, RJ, em outubro de 2001.

Naquele mesmo ano ocorreu um evento em Florianópolis, de abrangência estadual, que buscou discutir e encaminhar propostas para a construção de uma autêntica política de saúde mental, consonante com a reforma psiquiátrica que então se instalava no país. Estávamos todos na época ainda saboreando a entrada em vigor da lei 10.216, depois de longos anos de debates no Congresso Nacional, ainda que muito desfigurada do projeto original. Coisas, como a proibição da construção de novos manicômios, que a redação final apenas sugere:

Art. 2o - Parágrafo único. São direitos da pessoa portadora de transtorno mental:

IX - ser tratada, preferencialmente, em serviços comunitários de saúde mental.

E temos vários exemplos da necessidade de que a sociedade civil organizada pressione a máquina estatal. Nesse ano de 2004 vemos mais uma onda contrária à reforma se estabelecer, com a aprovação da abertura de um hospital psiquiátrico com 50 leitos em Guaraniaçu, pelo Conselho Estadual de Saúde do Paraná, conforme documento encabeçado pelo Fórum Popular de Saúde daquele Estado, que o Deputado Rosinha do PT Paranaense endossa, dirigido ao Conselho Nacional de Saúde em agosto desse ano. Queremos isso em nossa Santa e Bela Catarina?

Hoje nos deparamos com uma situação crítica. Nosso Fórum Catarinense de Saúde Mental, inchado e institucionalizado, plataforma política para uns, substituto da inoperante coordenação de saúde mental da Secretaria Estadual de Saúde para outros, possibilidade fazer um passeio para ainda outros, está correndo o risco de desaparecer. As tentativas de interferir diretamente naquela Coordenação via Colegiado de Atenção Psicosocial são ainda incipientes. Permanecemos aqui ainda sob a égide da lógica manicomial, visto que as principais decisões no âmbito estadual, passam por pessoas ligadas ao IPQ (Instituto de Psiquiatria de Santa Catarina).

Diante de todos estes fatos, essa nossa próxima reunião me parece vital, para que tomemos uma postura distanciada dos ventos palacianos, declarando uma posição claramente contrária à maré manicomial que preside a política de saúde mental em Santa Catarina.

Para tanto, uma reunião de pessoas conscientes e preparadas para discutir o tema, com posição antimanicomial clara e disposição para a luta, parece crucial. Temo pelo desvirtuamento. Temo pela institucionalização e engessamento do Fórum. Temo pela falta de uma base que, para além dos CAPS e seus trabalhadores, pudesse participar de mini-fórum regionalizados com acúmulo de discussão e propostas factíveis.

Ainda que costumeiramente eu costume pregar a tolerância e a inclusão, é chegada a hora de separar o joio do trigo. E que nosso Fórum retome seu rumo, cheio de um idealismo vigoroso, com militantes atentos, suas espadas desembainhadas e dispostos a cortar cabeças.

Senão melhor será optar pelo bloco do eu sozinho, no melhor espírito anarquista, inverter a lógica e tentar povoar os pesadelos de nossos carcereiros, seus hospícios e eletrochoques.

segunda-feira, setembro 13, 2004

claudio edinger fotógrafo Posted by Hello
Eu sou o louco que os próprios loucos não reconhecem.
Mas que os não loucos facilmente rotulam de: chato, inconveniente, agressivo, inconstante, irresponsável, vagabundo, chupin, aproveitador, mentiroso, manipulador e egoísta.
Então o meu lugar não é aqui?
Mas destas duas dores, a que mais me entristece é perceber que muitos loucos absorveram o hábito de serem juízes da normalidade e saem por aí colocando as pessoas em caixinhas mágicas de diagnósticos. É como aquele conceito de Paulo Freire, de hospedar o opressor, que diz que o oprimido, depois de tanto ver os métodos e as estratégias do opressor, age como o próprio opressor.
E ainda tantos insistem em me perguntar se sou psiquiatra ou psicólogo?
Não quero este poder, meus amigos loucos. Eu dele nada mais tenho para aprender ou ensinar. Guardem essa pergunta para outra pessoa.
Eu estarei olhando postes, pássaros e sentindo o vento.
Eu sou um a garça louca e bêbada, beijando a tempestade, como quem volta de meca disfarçada de: rinoceronte, ornitorrinco ou orangotango.
Ainda me olhas?
Ainda queres perguntar?
Sou igual e diferente. Sou único.
O que quero?
Um lugar pra falar e que me ouçam com o coração.
Tudo isso e mais dois ovos fritos por cima.
E tenho dito.

Nilo Neto

quarta-feira, julho 07, 2004

Desassossegados

O que me espanta é não vermos que por trás de tudo isso está a lógica
de mercado. O velho e bom capitalismo, disfarçado de neoliberalismo,
transformando-nos constantemente em peças de engrenagem, para que
sejamos consumidos enquanto consumimos (no melhor estilo MATRIX).

Lembra que no filme tem uma pílula milagrosa? Por que será que era
uma pílula e não uma respiração especial,tipo yoga ou taichi, ou
outra forma de gerar consciência? Será que não se trata de uma
propaganda subliminar da maravilhosa indústria farmacêutica?
Tem também aquele livro, o Admirável Mundo Novo, do Huxley, que nos
anos sessenta já previa a invenção da pílula da felicidade que
chamava de soma. Seria o prozac?

Nossa, devo estar com delírios persecutórios. Deixa eu ir correndo
tomar meu haldol, ou carbolítio, ou topamax, ou zyprexa, ou
habilify...

Falando nisso, que tal imaginar uma medicina sem lucro?
Médicos trabalhando pela vida humana, sem ter grandes contas
bancárias?
Que tal imaginar políticos trabalhando voluntariamente, tendo outra
profissão que os sustente?
E os padres que recebem dinheiro para serem intermediários de deus, e
a igreja, empresa mega multi milionária, especializada em vender
futuro, sem nenhuma garantia para quem compra?

A lista não tem fim e o monstro vive a nos devorar.

"Olhe, mas não toque; toque, mas não prove; prove, mas não coma; coma
mas não saboreie".

Abraço a todos

Nilo Neto - revolucionário de plantão

terça-feira, julho 06, 2004

salvador dali Posted by Hello
Projeto Aluado


Resgatando a memória do movimento da luta antimanicomial do Brasil


Os amores na mente as flores no chão
A certeza na frente, a História na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição

Geraldo Vandré

Objetivo

Reunir, preservar e compartilhar com todos os interessados, os documentos históricos que fizeram parte da trajetória do MLA.

Justificativa

Existem espalhados pelas casas dos militantes, em alguns caps e repartições públicas, milhares de fotos, desenhos, cartazes, panfletos, filmes, jornais que fizeram parte de momentos importantes da construção da reforma psiquiátrica em nosso país.
Este material está disperso e inacessível, correndo risco de se perder e deixar de ser aproveitado.
Notas:
• Criar uma ong ou fundação, para ser a curadora deste material.
• Espaço físico e equipamento para colocar à disposição dos pesquisadores e público em geral, o acervo disponível.
• Divulgação do Projeto para que haja doações.
• Certeza de continuidade, para que as pessoas confiem que o material doado não vá se perder nem deteriorar.
• Organização de exposições e visitas de escolares.
• Fazer contato com projetos assemelhados de outros países, para troca de experiência.
• Buscar informações com o pessoal da biblioteconomia.
• Garantir a participação dos usuários e familiares na organização, sendo que deverão ser remunerados pelo trabalho.

Nilo Marques de Medeiros Neto
Representante do Movimento Nacional da Luta Antimanicomial junto à Comissão Intersetorial de Saúde Mental do Conselho Nacional de Saúde.

sexta-feira, julho 02, 2004

CAPSTELO, CAPSTRANHO E CAPISTRANO

Muitos foram os encontros e desencontros desse primeiro congresso dos caps.
Saber que o pioneiro trabalho de Santos anda mal das pernas, doeu. Saber que existem mais caps privados e feitos dentro dos hospícios do que a gente imaginava, também.
Lindo foi ver tanta gente lutando, desejando e realizando a tal reforma psiquiátrica. Eu me senti mesmo muito amado, na minha condição flutuante de louco. Fiquei feliz também pelos meus companheiros e companheiras usuárias Brasil afora, que recebem a atenção diária desses valorosos guerreiros, trabalhadores da atenção psicosocial.
Participei de uma oficina sobre cooperativa e geração de renda.
Daí veio àquela coisa toda sobre como dividi os ganhos, como conseguir convênios, quem pode capacitar para o trabalho e tal.
Então perguntei aos trabalhadores de saúde mental presentes, se nas oficinas de geração de renda se discutia a ideologia por trás do modo de produção capitalista, como fator preponderante do sofrimento psíquico trabalhadores e eles me olharam como se eu fosse maluco...
Então preciso fazer umas reflexões aqui.

MARX E MATRIX

Numa grande reunião para discutir a implementação planetária do conceito de “você-pode-ser-um-vencedor”, Og Mandino, Dale Carnegie, Joseph Murphy, Napoleon Hill e Norman Vicent Peale e Lair Ribeiro concluíram que a única verdadeira saída para os portadores de transtorno mental era a de oferecer-lhes sub-empregos em fábricas, comércio, dando-lhes um sub-salário que não os matasse de fome, mas que garantisse à imagem dos donos do poder, um toque a mais de brilho e autoestima. Disseram os doutos senhores:
- Vamos dar esmola disfarçada aos malucos, para que não digam que somos desumanos. Assim eles também se ocupam de suas tarefas, como abelhas operárias e não ficam por aí fazendo estripulias. Além disso, deixam mais tempo para que seus familiares também sejam eficientes abelhas e possam no final do mês comprar medicamentos caros.
- Melhor ainda - disse Murphy - vamos juntar os governos e a indústria farmacêutica, aumentando o preço dos impostos e comprando remédios de alto custo, para que o governo faça essa compra.e as famílias achem que estão pegando remédio “de graça” nos postos de saúde. Enquanto isso vamos lucrando cada vez mais e deixando os ricos cada vez mais ricos e o hemisfério norte do planeta cada vez mais paranóico e milionário.
Então algum gênio da espécie que nem lembro bem quem, pensou:
- Mas qual seria a relação entre trabalho e loucura? Será que existe um sofrimento psíquico implícito nessa forma de organização capitalista que temos, por exemplo, dos trabalhadores das cidades e campos? E mais, se eles enlouquecem devido a esse conjunto poderoso de: salário, transporte público, saneamento básico, agrotóxicos, quem somos nós para ousar afastá-los do mercado de trabalho, tirando-lhes a chance incrível de ser operário-padrão. VAMOS SEM DEMORA FAZER A INCLUSÃO SOCIAL.

A PROPOSTA DO MILÊNIO

Tudo isso é porque lá naquela tal oficina do congresso dos caps, uma pessoa sugeriu que a indústria farmacêutica estaria interessada em financiar uma cooperativa de usuários de serviço de saúde mental.
Ora, fazendo isso, fecha-se o ciclo.
As pessoas enlouquecem por são coisificadas nas suas relação de trabalho. São levadas aos hospitais psiquiátricos, onde são tratadas com remédios de alto e baixo custo, fabricados por multinacionais e empresas brasileiras da indústria farmacêutica.
Quando melhoram um pouco são recolocadas no trabalho, via oficinas de geração de renda. Estas são muito semelhantes àquelas que os fizeram adoecer, com a vantagem de serem financiadas pela indústria que fabrica os remédios.
Ainda por cima, intermediada por uma falsa ciência chamada psiquiatria tradicional, que endossa tudo isso e legitima essa construção perante: a sociedade, as famílias e os próprios loucos, que acham muito bom poder enlouquecer novamente nas oficinas do hospício. Tudo isso não é maravilhoso???
Nossa verdadeira luta será sempre a de derrubar esse muro mental que separa: loucos e normais, negros e brancos, homens e mulheres, gays e heteros...
Nesse sentido, uma organização de trabalho que seja solidária, democrática, cooperativa, amorosa, ética, parece a verdadeira resposta para que nós, portadores de transtornos mentais, os ditos loucos, possamos começar a espalhar nossa doce loucura mundo afora.
Como dizia esse outro maluco do bem, Francisco de Assis: a loucura é o sol que não deixa a razão apodrecer. Vamos dar mais esse exemplo aos chamados normais, criando formas de trabalho que possam ser saudáveis e prazerosas. Vamos reinventar um mundo tolerante e tesudo. E que se inclua quem quiser, ou puder.

Nilo Marques de Medeiros Neto
Representante do Movimento da Luta Antimanicomial junto à Comissão Intersetorial de Saúde Mental do Conselho Nacional de Saúde – Brasília/DF

terça-feira, junho 22, 2004

Considerando que verdadeira mudança é cultural.
Considerando que a loucura é muito mais que doença mental.

Convocamos todos os companheiros e companheiras para a primeira caminhada do orgulho louco.

Segundo sábadfo de novembro, 14 horas.

Saindo do centro de Floripa em carreata até as proximidades da Colônia Santana (São José – SC).

Ocupação do jardim do manicômio, com manifestações artísticas e microfone aberto a todos.

Dia de exercer as estranhezas legítimas.

Pelo SUS e pela Rede Substitutiva de Serviços de Saúde Mental.

Contra qualquer tipo de manicômio (inclusive o mental).

Dia de luta contra qualquer tipo de preconceito.



Nilo Neto